Ultras é o típico filme que tinha tudo para ser antológico. Além da controversa temática dentro do universo futebolístico, a esperança era enorme pelo perfil de seu diretor: um italiano de 35 anos de idade com linguagem fílmica apuradíssima e consolidado no mercado de curtas-metragens europeu. O que vemos, infelizmente, é um produto final que não ata, nem desata e, embora esteja longe de ser considerado um fracasso, também não figura perto de produções marcantes. No fim das contas, é mais um trabalho genérico.

O que configura o longa como “mais do mesmo” é justamente o desnível entre o visível apuro técnico do diretor e o discutível e mediano roteiro. De cara, num plano-sequência fenomenal, de aproximadamente 6 minutos, Francesco Lettieri insere o espectador num recorte do fanatismo dos torcedores italianos, aqui caracterizados por fãs do Napoli. A beleza imagética, os longos planos e criativa decupagem (escolha de sequência de planos, ou seja, posição e movimento da câmera) carregam o filme nas costas o tempo inteiro.

De estética que aproxima-se muito do munto dos curtas com um “desleixo” proposital e muita câmera na mão, a excelente direção de Lettieri contribui e muito para a imersão do público, mesmo que este seja afastado, por vezes, por um roteiro piegas, principalmente quando a trama descamba para um romance absolutamente desnecessário. O deleite visual e o vislumbre também são parte integrante da linguagem, com lindíssimas tomadas aéreas, configurando o isolamento dos torcedores quando não estão reunidos. É, também, uma ferramenta inteligente de desenhar o mapa italiano na história. Definitivamente, é um filme com arquitetura italiana, não apenas sotaque.

Imageticamente rico e bem construído, não se pode dizer o mesmo do texto e da configuração da narrativa de Peppe Fiore e do próprio diretor, também roteirista. Os Ultras, torcedores organizados italianos, têm um poder que vai muito além do futebol que chega à esfera política, por exemplo. Mandam e desmandam no futebol italiano. Convocam reuniões com clubes. Unem-se em prol de interesses próprios. Torcidas de Napoli e Roma (inimigos mortais!) somam forças quando reivindicam algo em comum. Policiais morrem. Ultras morrem. E tudo segue da mesma maneira. 2020 e episódios de racismo ainda são flagrados nos estádios. A pólvora é tamanha que a menor fagulha pode provocar uma explosão de enorme magnitude. Ao contrário da direção, faltou coragem para o roteiro.

Num microcosmo de universo deveras perigoso, seus criadores caminharam para uma disputa interna de poder entre 3 gerações da torcida napolitana. O fanatismo e a violência são abordados de maneira rasa e nenhum personagem, de fato, tem um perfil minimamente traçado. Fica evidente, até pela maneira que a trama é desenvolvida, que o grupo mais antigo fundou a torcida e está no grupo há 30 anos. Isso é tudo. Não há empatia, apelo emocional, nada. O espectador não cria um vínculo com nenhum personagem. Sequer há sentido no comportamento de alguns personagens, como a mãe do jovem Angelo, que culpa Sandro pela morte de seu filho mais velho, mas não tem o mínimo de zelo pelo seu filho mais novo.

Sandro (Aniello Arena), também conhecido como “Mohicano” e Barabba (Salvatore Pelliccia) são dois dos membros mais antigos. O primeiro está proibido de ir a toda uma temporada e deve, no horário dos jogos, comparecer à delegacia para assinar as papeladas. Gabbieno (Daniele Vicorito) e Pechegno (Simone Borrelli) são os atuais líderes da torcida do Napoli e pretendem implantar novas regras, como desafiar leis impostas pela federação de não frequentar o estádio do time rival. Angelo (Ciro Nacca) é o principal representante da 3ª geração e irmão de “Sasá”, jovem torcedor falecido num violento episódio anos atrás.

Antes ficasse apenas no mérito da disputa de poder, como uma analogia a um grupo de animais selvagens e homens que rivalizam pelo posto de macho alpha, o roteiro seria mais sólido. Tudo se perde quando Sandro, após um sexo casual de acesso à endorfina desenvolve o famigerado e obrigatório relacionamento do cinquentão de passado violento que agora quer ser “dono de casa”, mas seus fantasmas do passado (amigos da antiga geração!) o assombram. Terry (Antonia Truppo), mulher aparentemente libertina, não tem interesse em formar uma vida a dois, mas acaba cedendo à pressão. Se não fosse a habilidosa direção de Lettieri e o contraste com as cenas dos Ultras, estaríamos diante de momentos saídos de uma comédia romântica de categoria duvidosa.

Ao optar por seguir Sandro na tentativa de libertar-se das amarras do passado, o que, convenhamos, é um certo clichê, o filme torna-se lento. A edição de Mauro Rodella beira o ritmo do drama existencial. É importante que o espectador tenha o relaxamento após momentos de êxtase, mas as pausas dramáticas são elásticas demais, principalmente para um filme onde o espectador está preparado para as consequências e ávido por adrenalina.

A fotografia de Gianluca Palma é carregada de azul e cinza por motivos óbvios. O azul representa a torcida do Napoli e seus fanáticos. O cinza é a cor da arquibancada, das ruas, da violência e dos muros pintados pela cidade. Também há uma paleta terrosa que brinca com o terreno italiano e as regiões desgastadas e com o clima quente da guerra e dos homens sem camisa. Soldados sem armadura que vão à briga por uma bandeira e por si mesmos.

Indicação de Filme:

Em 2005, Green Street Hooligans, dirigido por Lexi Alexander e protagonizado por Elijah Wood e Charlie Hunmam, focou na violência das “firmas”, as torcidas organizadas britânicas e em características peculiares como, por exemplo, a maior parte ser de cidadãos bem empregados e com famílias constituídas. Lá, brigar era uma forma de colocar a energia para fora e ter respeito nas cidades vizinhas. O roteiro forneceu um “background” dos personagens. Entendemos quem eram os protagonistas e acompanhamos a transformação em cada um deles. Há arcos bem construídos e não trata-se apenas do quebra-quebra ou de uma história genética neste universo. Há riqueza narrativa.

Ultras, embora sustentado pela ótima linguagem do diretor e convincentes atuações do elenco, esbarra no roteiro frágil, na equivocada utilização da temática e personagens sem a empatia do público. No fim das contas, o desnivelamento equilibra as contas e o que temos é um longa-metragem bem realizado, mas sem o impacto esperado.