Dirigido por Peter Berg (Horizonte Profundo: Desastre no Golfo, Hancock), um dos mais recentes exemplares de ação da Netflix conta com boas doses de comédia e funciona mais pelo divertimento da pancadaria que pela tentativa desnecessária de se inserir plot-twists num suspense um tanto quanto previsível. O roteiro de Sean O’Keefe e Brian Helgeland (O Sequestro do Metrô 123, Sobre Meninos e Lobos) é desnivelado exatamente por forçar situações moralmente sérias em atuações e diálogo completamente cômicos a maior parte do tempo.

O ponto mais alto do filme, definitivamente, é a sua trilha sonora. Steve Jablonsky presta uma homenagem aos velhos e bons ícones oitentistas e dos anos 90 do famigerado gênero de ação, tão presentes na TV aberta nos horários da tarde ou da noite há anos atrás. Em sequências embaladas por rock’n roll e sintetizadores virtuosos, refrões marcantes soltam a carga de adrenalina necessária e é impossível não se contagiar com as trocas de socos, chutes e tiros. Quem não gosta de ver uns vilões tomando umas chapoletadas violentas? Troco em Dobro promove isso. É inegável.

A premissa inicial traz Spenser (Mark Whalberg), um policial com forte senso de justiça que é condenado à prisão por 5 anos após agredir seu superior, Captain Boylan (Michael Gaston), quando este havia praticado violência doméstica com sua mulher. Spenser coleciona inimigos dentro e fora da prisão. Durão e sem medo de bater ou apanhar, geralmente resolve seus problemas no braço. A narrativa se impulsiona do momento que o ex-policial é enviado para casa após cumprir a sua pena. Enquanto o roteiro constrói as relações primárias do protagonista e retrata sua rotina, um policial de alta patente é assassinado. Este é o gatilho que dispara todos os acontecimentos seguintes do filme.

Inicialmente, somos apresentados à Henry (Alan Arkin), um senhor meio traquitana, dono de uma academia de lutas e que fornece a Spenser um quarto em sua casa. Durante seu tempo na prisão, este cuidou de sua cadelinha Pérola. Posteriormente, outros dois elementos que compõem o núcleo central: Hawk (Winston Duke), um brutamontes mal encarado e também ex-presidiário que vive na casa de Henry e desenvolveu um alto grau de confiança com Pérola e a personagem mais transloucada de todo o filme, Cissy Davis (Iliza Shlesinger), ex-esposa de Spenser e uma bomba de libido, única capaz de frear seu ímpeto dominante.

Hawk é um sujeito misterioso e “nonsense“. O filme não faz muita questão em revelar informações sobre seu passado. Mas uma coisa fica clara: ele adora animais de estimação. Uma espécie de amizade e confiança mútua é construída entre os dois, onde Spenser funciona como seu tutor nas aulas de boxe da academia. É daí que o filme investe na famosa abordagem de “dupla dinâmica“, onde dois sujeitos movidos por atos de bravura arriscam suas próprias vidas para corrigir injustiças.

O relacionamento explosivo entre Spenser e Cissy, cujo comportamento desvirtua completamente de seu nome (cissy ou sissy: pessoa afeminada; covarde), entrega momentos divertidos, embora forçados. Não há, em nenhuma cena, a predisposição em promover uma mínima camada dramática no constante estado de ação/comédia. Repleto de alívios cômicos e suspiros de humor, o filme que se propõe à solucionar um caso obscuro exagera na dose. Isto torna cristalino que a seriedade não faz parte da construção fílmica, e, por isso, a dubiedade de porque se investir numa trama com temas sociais e políticos quando sua atmosfera não é levada tão a sério.

Outro ponto questionável é a desnecessária caricatura de “thriller“. Antes da metade do filme é possível traçar um caminho a seguir pela dupla e desvendar onde as informações pretendem levar o espectador. Seja num comportamento de um antagonista e, principalmente, no andamento da investigação, o roteiro perde tempo demais oferecendo alguns vilões intermediários quando fica evidente quem deve ser o alvo do ataque final. O suspense, bem como algumas questões temáticas, não conversam com a aura do longa-metragem.

Troco em Dobro tem um elenco diversificado e que funciona. O veterano Alan Arkin, o experiente Mark Wahlberg, o gigante simpático Winston Duke, a comediante Iliza Shlesinger, o músico Post Malone, dentre muitos outros. Não há nenhuma atuação diferenciada, bem como não há um fracasse retumbante. Dentre o elenco inchado com diversos personagens que beiram o acúmulo evitável, Bokeem Woodbine, que interpreta Driscoll, foge um pouco da estrutura dos arquétipos e é o que funciona melhor em tela. Mark Wahlberg entrega o que se espera dele. Como sempre, um papel seguro e que leva divertimento com o seu físico arrojado. É aquele típico aluno nota 6 (ou 7!). Nunca é formidável, mas raramente está abaixo da crítica.

Em meio a seu desequilíbrio estrutural, o resultado é um excesso de conservadorismo, cartilha e uma falta de tempero nesta que poderia descambar para uma aventura de quase desleixo para a narrativa com agradáveis cenas de porrada e belas coreografias “dançadas” por homens fortes, violentos e sanguinários, mas sorridentes e de bom coração que não fogem à justiça.