Três Verões, de Sandra Kogut, funciona como um prenúncio do período inicial da Lava-Jato, ao mesmo tempo que exerce forte crítica social do relacionamento entre as classes, entregando um filme com um quê dramático evidente, mas leve de assistir que tem na comédia seu gênero dominante, arrancando risadas com a simpática personagem Madá, em mais uma ótima atuação de Regina Casé. A maior crítica do filme está justamente na servitude da protagonista em relação à família rica, onde sequer há tempo em tela para entendermos melhor sobre quem ela é e o seu passado, exceto pela cena mais comovente de todo o filme, que é quando a diretora esfrega em nossa cara que o fio condutor de toda a narrativa não teve voz própria em nenhum momento, um reflexo nu e cru de nossa sociedade.

A narrativa é subdividida em 03 semanas no período de festividades entre Natal e Ano-Novo dos anos de 2015, 2016 e 2017. Madá trabalha como empregada doméstica na casa de Edgar (Otávio Müller), um empresário milionário que desde o início parece estar envolvido em alguma falcatrua e Dona Marta (Gisele Fróes), sua patroa e claramente infeliz no atual estágio do casamento. Na casa, ainda temos Luca (Daniel Rangel), um jovem de 20 anos que está de mudança e Seu Lira (Rogério Fróes), avô da família e pai de Edgar, um velho doente, introspectivo, que vive isolado em seu quarto e tem uma relação mais próxima com o neto e com a própria Madá. Desde o início o filme faz a distinção entre as classes sociais. Um grupo de empregados é responsável por toda a manutenção da casa e serviços domésticos. Madá, inclusive, tem deveres que normalmente são incumbidos à qualquer dona ou dono de sua casa, como ligar para as amigas e cancelar um amigo oculto. A representação da discrepância entre as classes é tão grande que no dia do Natal, este em 2015, Madá é a mamãe noel da festa da família, sem ao menos receber um presente para ela. O filme pode ser de humor, mas o drama está lá, intrínseco.

Madá, que claramente não deseja ser uma empregada doméstica para sempre, quer abrir seu próprio negócio: um quiosque de pão de queijo (dentre outras coisas!) numa avenida movimentada da cidade. Para isso, ela precisa comprar o terreno no valor de dez mil reais. É perceptível como este assunto é tratado com desdém pelos patrões, pois são inúmeras tentativas pedindo o dinheiro, nem que seja um adiantamento e em várias ocasiões tanto Edgar, quanto Marta trocam de assunto para algo totalmente trivial e sem importância. Numa atitude suspeita e aproveitando-se da inocência e falta de cultura de Madá, Edgar compra seu celular velho pela quantia integral e diz para ela não se preocupar, que não lhe deve nada.

A narrativa ganha um novo estágio a partir de 2016, quando a família (exceto por Seu Lira) não está mais na casa. Cumprindo com suas obrigações e tendo a convicção de que a família está viajando, Madá assume um papel de governanta e mantém tudo em ordem, garantindo a disciplina dos outros funcionários enquanto se aproxima cada vez mais de Seu Lira, sendo evidente o seu rejuvenescimento com um rosto mais sorridente e roupas mais leves. A percepção de que Edgar está envolvido em algum esquema é exposta quando Branca (Carla Ribas), uma amiga da família e sempre rude e estúpida com Madá pega vários documentos num armário que Edgar nunca deu permissão para ninguém abrir.

Com a família sumida e salários dos funcionários atrasados, o pior acontece e a Polícia Federal investiga a casa em busca de provas da corrupção de Edgar, em prisão preventiva. Madá, com o nome ligado a vários telefones celulares é suspeita de ser alinhavada com seu patrão graças a um golpe que ele praticou. Desde então, Seu Lira numa tristeza profunda com seu filho e Madá estreitam os laços e os funcionários, mesmo sob a supervisão severa da mesma, tentam usufruir do melhor da casa e dos pertences dos patrões. Há um espectro de medo envolvido aqui, principalmente por parte de Madá, que por muito tempo insiste em preservar tudo na casa para não tomarem bronca ou serem demitidos.

Em certo momento, quando todos sentem a liberdade pela primeira vez, são expostos em cenas “pastelonas” de comédia, onde todos parecem alheios sobre tudo a sua volta. Só querem causar e curtir das maneiras mais simplórias de todas. Não há, em nenhum momento, uma discussão mais profunda sobre o paradeiro dos patrões ou algum questionamento político ou apenas de curiosidade de toda aquela nova realidade. É aquilo e pronto! Por mais que possa levantar um debate acerca da engrenagem que provoca estes comportamentos, nada mais é que um jogo de estereótipos encontrados nas mais famigeradas sitcoms nacionais. Esta é a representação da camada pobre, principalmente no humor. O cinema poderia ser ferramente de discurso, mas do que adianta o ser se numa identidade falsa ou a menos de afastamento? É necessário um exercício reflexivo para compreender que, de fato, a falta de senso dessas pessoas é um poderoso ato de questionamento que não tem acesso à cultura e educação. É preciso educar o povo para que este povo se enxergue além dessa fronteira e, honestamente, isso não cabe a uma única diretora de cinema.

O último ato, em dezembro de 2017, deixa a comédia de lado e investe num drama mais pesado e direto, com direito a uma cena de Madá que joga tudo que fora mostrado em tela até então no lixo. E, não, não trata-se de um erro de roteiro ou de texto, é um acerto estrondoso. Assim como Renato Russo na música Perfeição, em que diz “Podemos celebrar a estupidez de quem cantou essa canção”, Sandra Kogut rasga o roteiro do filme na cara do público e passa o recado de que tudo aquilo fazia parte de um sofrimento velado e quieto de Madá, que nunca teve direito à voz própria.

Regina Casé é, de fato, o carro-chefe do filme e o conduz com uma serenidade e simplicidade ímpar, elevando o grau de verossimilhança do texto, entregando uma personagem crível e que gera uma forte empatia com o público. Rogério Fróes também é eficiente e contribui na camada dramática do filme, que tem desenho ascendente e entrega um clímax bombástico, numa ferramenta simples e clichê, mas, ainda assim, eficaz e capaz de colocar o dedo na ferida e levar a mão à consciência. Há um vazio na situação envolvendo a perícia policial e a situação da família. Não há uma resposta conclusiva ou definição do que ocorreu. Há indicativos interpretativos, mas, de certa forma, ao menos o destino de Edgar termina em aberto. Se é para destacar a Lava-Jato, polêmica ou não, a favor ou não, se faz necessário no filme uma conclusão factível e relevante, não apenas uma ideia de que algo possa ter acontecido.

Três Verões aposta numa linguagem leve, uma atmosfera familiar e na comédia para evidenciar o drama da má distribuição de renda do país, bem como no poder de uma investigação feita para prender os corruptos mas que atinge até as camadas mais pobres do país. É um filme atual e necessário para a sociedade brasileira como um todo.

Filme assistido no dia 25 de janeiro na 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes.