Terremoto é uma continuação de uma série de catástrofes na Noruega iniciada em 2015 com o filme A Onda. O evento geológico e cataclísmico de 3 anos antes, responsável por uma violenta tsunami de 85 metros de altura, definitivamente afetou a estrutura tectônica do país. Sinais indicam que a cidade de Oslo pode ser vítima de um terremoto de alta magnitude, mais poderoso que o de 5.4 na escala Richter ocorrido em 1904, com seu epicentro na fossa tectônica da capital.

Assim como o trabalho anterior, a dupla de roteiristas investe numa ameaça invisível e arrebatadora: a força da natureza. Numa sociedade onde efeitos climáticos são evidentes e alterações no comportamento do planeta destroem cidades e paisagens diariamente, o filme expõe ao espectador a fraqueza do ser humano quando o enfrentamento é impossível. Mais que um filme-catástrofe, fica o recado de preservação e cuidados com o meio-ambiente, pois as tragédias são cada vez mais comuns.

A sensibilidade como ferramenta narrativa é um diferencial das produções cinematográficas de países europeus em relação a boa parte dos blockbusters americanos. Em Terremoto, os mesmos personagens que protagonizaram o filme anterior retornam. Roteiro e direção, antes de evocarem a destruição iminente, trabalham numa abordagem dramática e intimista com foco nos traumas sofridos e como o evento anterior afetou a cada um deles.

Kristian Eikjord (Kristoffer Joner), geólogo experiente, vive isolado numa casa bagunçada e considera-se culpado pela morte de várias pessoas. Sua filha, Julia Eikjord (Edith Haagernrud-Sande), tem um vínculo afetivo e de dependência protetiva muito forte com ele, mas as memórias de Kristian são psicologicamente intensas, o que culmina numa relação de maior afastamento e frieza. Ainda na família, o roteiro também reintroduz Idun Karlsen (Ane Dahl Torp), sua ex-esposa, e Sondre Eikjord (Jonas Hoff Oftebro), o filho mais velho do casal.

São introduzidos dois personagens secundários, porém relevantes no descorrer da trama: Konrad Lindblom (Per Frisch) e sua filha Marit Lindblom (Kathrine Thorborg Johansen). Konrad, há anos, estuda os movimentos de placas tectônicas e evidências sonoras do subterrâneo de Oslo e, indiretamente, tem-se a exata noção de que é um sujeito aficionado por suas descobertas e está convicto que a Noruega está prestes a sofrer com o maior terremoto de sua história com o epicentro no centro urbano da cidade.

Seguindo a cartilha dos filmes-catástrofe, tal hipótese, examinada e defendida por Kristian, é ignorada quando comparada a dados obtidos por equipamentos de altíssima tecnologia de uma empresa de monitoramento e alarme de eventos cataclísmicos. Para os cientistas e profissionais do ramo trata-se de um exagero, erro de cálculo ou até de um comportamento equivocado de um sujeito traumatizado pela tsunami. Há o velho retrato do herói solitário que, ao defrontar-se com o perigo iminente, faz de tudo para salvar sua família e o máximo de pessoas possível.

Quanto à elenco, há um desequilíbrio evidente na utilização dos personagens do núcleo familiar. Kristian, Idun e Julia são muito mais relevantes à trama principal do que Sondre. Este é relegado ao papel de um jovem universitário que está namorando a jovem Mia (Hanna Skogstad). Analisando a estrutura do roteiro e a condução da história, fica a impressão que Sondre foi inserido quase como uma obrigação. Talvez fosse mais honesto citá-lo ou dado um destino melhor ao personagem.

O diretor John Andreas Andersen e os roteiristas John Kåre Raake e Harald Rosenløw-Eeg estruturam o filme em duas partes bastante distintas: na primeira, uma linguagem reflexiva de traumas e questões não superadas com várias camadas dramáticas subdivididas entre os personagens, mas presente principalmente num Kristian abalado emocionalmente. Na segunda, o cenário de destruição e impotência de pessoas que nada podem fazer para evitar a fúria da natureza, apenas procurar abrigo ou sobreviver em meio ao caos.

Ao contrário de seu colega cineasta nórdico, o dinamarquês Lars Von Trier, Andersen não destrói a humanidade, tampouco extingue a vida no planeta. Há como sobreviver e cabe a si mesmo proteger-se e contar com a sorte num cenário arrasado. Movidos pelo instinto de sobrevivência, Kristian, Idun, Julia e Marit esgueiram-se, correm, pulam e gritam por ruínas e estilhaços de um prédio prestes a desabar. O diretor, em parceria com o fotógrafo John Christian Rosenlund, montam cenas enclausurante de alto grau de angústia entre metais, poeira e fogo. É o ponto alto das lentes, que seguem um naturalismo maior na primeira parte.

Como em todo filme-catástrofe, há o uso do CGI, mas há também um imponente design de produção com participação ativa na narrativa e na interação dos personagens com os cenários. Jørgen Stangebye Larsen desenha cenários críveis de destroços, tanto externa quanto internamente. De fato, o ponto alto dos quesitos técnicos do filme se sobressaem na metade mais agitada, que requer uma coesão entre tecnologia e narrativa.

A trilha sonora de Johannes Ringen e Johan Söderqvist está intimamente ligada ao ritmo da montagem de Christian Siebenherz. Como numa ópera, há movimentos que se contrastam. O primeiro é composto de melodias tristes e vazios sonoros recorrentes. O segundo é uma fusão instrumental virtuosa, foleys e sons da própria cena que criam o clima de tensão e adrenalina que representa bem a desordem e o pânico da população.

Terremoto não se destaca pela originalidade, tampouco por sua narrativa bem construída. Trata-se de uma premissa simples e um roteiro que conversa diretamente com várias outras obras cinematográficas do gênero. O que o coloca numa prateleira acima de grande parte destes é o refinamento e a linguagem sensível, que valoriza performances e adiciona uma densa e rica camada dramática em todo o contexto. O terremoto, no fim das contas, é uma alegoria. O filme é sobre um homem amargurado que quer livrar-se da culpa que carrega há três anos.

Filme visto em cabine de imprensa no dia 06 de março de 2020 à convite da Sinny Assessoria e Califórnia Filmes.