A história ficcional do personagem Anselmo Rojas (Asier Etxeandia) está inserida no contexto da “Invasão do Vale de Aran”, popularmente conhecida como “Operação Reconquista”. A Unión Nacional Española (UNE) e o Partido Comunista da Espanha se uniram na tentativa de provocar uma revolta popular contra a ditadura de Francisco Franco, atacando com grupos de guerrilheiros espanhóis pelo “Valle de Arán”. Veteranos da Guerra Civil Espanhola e Resistência Francesa somavam cerca de 4.000 homens. O governo de Franco, antecipando a invasão francesa, encomendou a Valiño Rafael Garcia, Chefe do Estado-Maior do Exército, a defesa da fronteira franco-espanhola, liderada pelos generais José Moscardó e Juan Yagüe, com cerca de 50.000 homens. Além disso, Franco contava com o apoio militar da União Soviética.

Embora no contexto de uma ditadura e entre guerras, Surdo tem uma roupagem imagética característica de um grandioso Western com figurino adaptado à sua temporalidade (1944). Os quadrinhos que originam a obra são de estética completamente diferente, em preto e branco, então coube ao diretor Alfonso Cortés-Cavanillas traduzir a obra visualmente da melhor forma; Tecnicamente, é um excelente trabalho. A propósito, a obra destaca-se justamente por seus aspectos técnicos, principalmente o acerto e a simbiose entre imagem e som.

De paleta quase sempre queimada e escurecida, a fotografia de Adolpho Cañadas foge da ideia de que demais sentidos são favorecidos quando algum outro é deteriorado. Pelo contrário! A visão fica ofuscada, turva, embaçada. A paleta arenosa do vale de Aran integra boa parte da configuração de cores, que é complementada por tons escurecidos, principalmente de azul e tons de cinza. Mesmo o verde da floresta tem pouco brilho e pouca saturação, sendo mais evidenciado o marrom dos troncos e da terra do chão, onde Anselmo sempre arrasta-se para fugir da vista dos inimigos.

Veterano, provavelmente com seus mais de quarenta ou cinquenta anos, Anselmo Rojas perde sua audição numa explosão, quando ele e seu grupo tentam sabotar e explodir uma ponte. O tempo da explosão é mal calculado e tudo vai pelos ares muito antes do previsto. Vicente (Hugo Silva), seu principal parceiro, é um dos sobreviventes, mas está com as pernas imobilizadas. Um tiroteio entre outro sobrevivente na ponte e guardas atraídos pelo som da explosão eclode. Em poucos minutos, a exímia construção de mixagem sonora, em conjunto com a montagem, também feita pelo diretor, eleva a tensão a um nível altíssimo, pois um único sentido é capaz de fazer uma diferença absolutamente monstruosa, principalmente num campo de batalha.

Após perder a audição externa, pois consegue ouvir o som de sua mandíbula, de sua língua, saliva e garganta, o desorientado Anselmo parte em direção a floresta e precisa provar ser capaz de sobreviver, mesmo debilitado e constantemente caçado pela força militar do ditador espanhol. O grande contraponto da produção está no desbalanceamento do roteiro. Para o próprio diretor, que também escreveu, e Juan Carlos Díaz Martín, uma cidade sitiada e protegida 24 horas por dia pela guarda militar e por atiradores de elite soviéticos é menos perigosa que uma floresta com alguns pares de animais e árvores densas. Sim, lobos são perigosos, mas não necessariamente vão atacar Anselmo. Qualquer homem a mando de Franco, isto inclui todos os soldados da cidade, vai atirar no pobre guerrilheiro. Exceto Sargento Castillo (Imanol Arias), um velho homem do exército republicano poupado pelo grupo de Anselmo quando todos ainda estavam vivos.

A surdez representa um pouco mais que apenas um sentido, mas o constante estado de fraqueza humana. A degradação do protagonista desde o momento da explosão ao longo de sua jornada na luta por esconderijos e comida é evidente. Não ouvir representa não poder confiar, se expor ao perigo, tomar decisões equivocadas pelo impulso, ou pior, agir com instinto animal. A relação de cumplicidade do lobo que uiva, deita ao seu lado e lambe seu ferimento é o desenho do homem que absorveu o pior da natureza e deixou sua humanidade de lado, transformando-se não num animal, mas numa carcaça, numa carniça a ser disputada por seres que rogam os pútridos. Não basta ver, cheirar, tocar, pensar… quantos sentimentos Anselmo tinha, de nada adiantaram, pois ele não podia ouvir e perdido num mundo sem humanidade, como ele demonstraria a sua? Apontar, atirar, fogo!

Infelizmente, um personagem tão bem representado e construído quanto Anselmo cai no conto do vigário e na mesmice do relacionamento desnecessário. Mesmo que siga um roteiro pré-determinado ou que tenha uma fidelidade com uma escrita original, não cabe aqui. Quebra o ritmo, desconstrói o personagem, cria cenas que não adicionam em nada à narrativa. Rosa (Mariam Álvarez) havia passado por uma situação bem traumatizante e, talvez por um processo de purificação, recorreu a alguém confiável para tal, mas ainda sim torna os longos minutos gastos neste processo quase artístico irrelevante e que fugiu completamente da estética e linguagem do filme.

Surdo apresenta dois vilões. Capitán Bosch (Aitor Luna) e Darya Volkov (Olimpia Melinte). O primeiro trabalha diretamente para Franco e, à base de bofetadas, manda e desmanda nos soldados. A segunda é atiradora de elite do exército soviético e a típica mulher feminista ao extremo e absurdamente violenta, de métodos sanguinários de tortura e sem remorsos. O grande questionamento é se os personagens são críveis. O primeiro sim: anos 40, ditadura militar e indivíduo de alta patente. Seu comportamento é o esperado. Darya, por outro lado, mesmo sendo uma militar e russa, o que já soa como uma provocação, tem muito da apropriação do contexto dos dias de hoje da autoafirmação e da força feminina. É exatamente por ser tão fora da realidade e tão absurda para a época que ela funciona como válvula de escape e dá um pouco de fórmula “Tarantinesca” com seus vilões caricatos, com direito até a tapa-olho. Ela dá ódio, isso que importa!

A maior fragilidade do filme está na movimentação de Anselmo entre floresta, cidade e território. O roteiro impõe sempre facilidade e não há, de fato, algo que o impeça de locomover-se quase que livremente a maior parte do tempo, exceto em cenas propositalmente criadas para tal. Outra questão, alguns maneirismos vocais, por vezes imprecisos. Em algumas situações ele fala como um surdo, em outras ele começa sussurrando, como se estivesse se ouvindo. Estes detalhes fazem diferença na assimilação e poderiam ser corrigidos. Mas nada que estrague a boa (ou ótima!) experiência de vê-lo.

Com dez ótimos minutos de introdução, Surdo não deixa o ritmo cair e a excelente apuração entre direção, montagem, mixagem de som e fotografia faz deste um velho-oeste com capricho técnico que, literalmente, mexe com todos os nossos sentidos.