O novo trabalho do diretor Geraldo Sarno, de 81 anos de idade, é, sem sombra de dúvidas, uma das grandes surpresas da 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes. O filme, inteiramente em PB, estética justificada na narrativa, mescla elementos do western spaghetti numa versão nordestina, com jagunços e militares substituindo os pistoleiros com uma estrutura assíncrona e não-linear, onde o filme perpassa por uma de suas cenas de conclusão inúmeras vezes até remontar a história como um todo. É um exímio trabalho de montagem e uma direção precisa onde a câmera funciona como método observativo e componente cênico, sendo um personagem em inúmeras vezes com sua linguagem estabelecida em pontos de vista.

A introdução traz um sujeito sentado frente a uma fogueira com uma vasta paisagem ao som de uma canção nordestina que evoca ícones de um passado violento do sertão, tais como cangaceiros, vaqueiros e bandidos. E esta cena contemplativa e aparentemente fora de narrativa traduz o contexto do que está prestes a passar em tela. De cara, após este prólogo, temos um homem com vestes de cangaço apoiado numa pedra e ferido. Com dificuldade de respirar e soltando espuma pela boca, está claro que o sujeito está próximo da morte. Esta cena é repetida inúmeras vezes e, cada vez que isto acontece, mais informações da história são colocadas ao público. É possível caracterizar como uma releitura de um suspense que funciona ao revés: não é o que está por vir que causa calafrios, mas os fatos anteriores. É nesta remontagem constante que entendemos o passado, o presente e que acompanhamos o futuro dos personagens, principalmente deste moribundo.

Antão (Vertin Moura), protagonista, tem sua história remontada neste louco quebra-cabeças onde a ordem dos fatores não interessa, até o ponto que entendemos ser uma criança de família pobre do sertão cujo pai, bandido, morreu assassinado e não se há informações de seu corpo. Após um massacre local por parte dos militares, ele e sua mãe são levados à São Paulo pelo coronel e lá passam a viver. Antão se alista no exército e chega a cabo, ganhando técnicas de combate militar. Neste meio tempo, sua mãe morre e resolve fugir de volta para as terras de sua origem. Lá, entra no bando de Capitão Jesuíno (Julio Adrião) e passa a viver como jagunço fora da lei. De “Antão”, virou Jararaca, até chegar a Gavião.

Acompanhamos então a jornada de Gavião, Jesuíno e seu bando, sempre numa narrativa não-linear que desperta sentimentos opostos. Ao mesmo tempo que torna-se insuportável ver mais uma vez o homem agonizante na pedra, é a cena que mais queremos ver, pois após ela mais conhecemos da história. O bando sofre baixas, passa por traições, pilha cidades. Não há mocinho nesta história, exceto pelo povo que rouba pela fome e deixa rastros de crianças e pessoas mortas pela falta de alimento. Gavião é um anti-herói em meio a um grupo que se diz vítima e que ao mesmo tempo mata a torto e à direito qualquer inocente em troca de bons punhados de réis negociados com autoridades, burgueses e até militares. O roteiro brinca com o julgamento do espectador: não há mocinho, mas pode haver aquele que se redima ao ponto de não ser mais um vilão num mundo abandonado e entregue à própria sorte.

A hábil montagem e eficaz direção de Geraldo Sarno nos conduz facilmente para mais uma história de bang-bang, o típico velho oeste abrasileirado. Quando o mais do mesmo parece evidente, uma reviravolta potente ocorre. Estamos diante do “mundo das sombras”, que justifica e obriga a fotografia em preto e branco e onde o protagonista agora chamado de “Gavião, o Antão Jararaca” procura pela alma perdida de seu pai no mundo dos mortos, numa releitura sertaneja, preservados seus costumes e crenças. A total subversão da narrativa clássica que nos coloca numa atmosfera transcendental é um acerto absurdo, pois o foco não é mais a luta de classes ou o “bem contra o mal”, é um resgate da cultura do sertanejo, uma representação transloucada de um brasil pouco desbravado, desconhecido e estereotipado.

A linguagem ácida e potente de Sertânia atinge seu ápice de reflexão quando o único homem que busca redenção frente a um povo agonizante tem sua cabeça decapitada por militares e exposta numa bandeja em meio a uma festa típica de São João nos fazendo pensar no quão necessário é o estudo da origem do homem do sertão e como sempre fazemos o mesmo. A cada ano, colocamos uma cabeça a mostra para celebrar festas e costumes tradicionais de um povo que sofreu por toda a sua vida e continua em segundo plano nos dias de hoje, relegados a festas com comidas típicas.

Sertânia, nas mãos do habilidoso e experiente diretor Geraldo Sarno, resgata a origem difícil do povo do sertão, marcado como gado por forasteiros e pelos próprios semelhantes que se vandalizaram na tentativa da sobrevivência. Como repete Gavião com uma voz que ecoa sozinha numa multidão desinteressada: “O povo é inocente. Não tem culpa de passar fome!