Nos anos 90, nos Estados Unidos, uma onda de assassinatos (e boatos!) vinculados à seitas satânicas vieram à tona na imprensa, o que causou um certo caos na população. O diretor espanhol bebe desta fonte, mas passa longe de dar o devido peso ao período, servindo apenas de alegoria e efeito suspensivo.

Regressão, filme de 2015 que está na Netflix, escrito e dirigido por Alejandro Amenábar (Os Outros, Mar Adentro), é um suspense que aborda dois temas instigantes e sensíveis: a psiquê humana e o satanismo. Ambos os assuntos mexem com um sentimento em comum: o medo. Infelizmente, num geral, o produto final não alcança o resultado esperado e a obra não absorve o melhor de cada temática.

Ter uma pessoa manipulando seus sentidos e emoções não deve ser muito confortável, principalmente se esta acessar ou até mesmo criar memórias em seu inconsciente. Quanto a representação satânica, é preciso fazer um exercício de formação da sociedade e entender o papel preponderante da religião e dos símbolos nos mitos e ritos. O demônio, em qualquer uma de suas facetas e entendimentos, é um ser assustador, mesmo para o ateu mais corajoso, pois é generalizado como uma figura incrustada de uma maldade imensurável.

Fosse este um filme corajoso que mergulhasse profundamente em ambos os assuntos teria um potencial fantástico, mas não é o que acontece em Regressão, que aborda ambos de maneira rasa. Mesmo assim há momentos que prendem, principalmente no espectro da paranoia de sonhos e pesadelos, este motivado pela histeria de uma sociedade contaminada pelo exercício mental da exaustão.

A premissa é a seguinte: em 1990, no estado de Minnesota, o detetive Bruce Kenner (Ethan Hawke) investiga o caso de Angela Gray (Emma Watson), uma jovem de 17 anos que presta queixa de abuso sexual contra seu pai, John Gray (David Dencick), que não tem nenhuma recordação do episódio. O departamento de polícia procura a ajuda do professor e psicólogo Kenneth Raines (David Thewlis) para recuperar a memória do suspeito com uma técnica experimental.

Onde o satanismo se encaixa? – essa deve ser a sua pergunta. Este é o grande embaralho da narrativa. A regressão, ou seja, visualização de eventos do passado pelo paciente num processo de hipnose, já seria mote suficiente para o longa-metragem com uma vasta gama de possibilidades. Ao associar outro tema de tamanha discussão, o roteiro de Amenábar fica num bate e volta desenfreado em que não é possível aproveitar o melhor dos dois mundos.

As cenas mais interessantes têm a interação do elenco secundário da família Gray com o detetive Kenner. Rose Gray (Dale Dickey), Roy Gray (Devon Bostick) e principalmente John Gray (David Dencik), dono da melhor atuação, protagonizam conflitos intensos e dramáticos, colaborando com o nível de tensão que por vezes beira o tédio. É envolto de mistérios mas nada empolgante, principalmente se levarmos em conta a nada convincente atuação de Emma Watson e o nada palatável Reverendo Beaumont (Lothaire Bluteau).

Não saber para qual direção apontar é, definitivamente, o maior erro de Regressão. John Gray é assassino? Angela Gray é inocente? Rose Gray esconde um passado sombrio? O policial George Nesbitt (Aaron Ashmore) é um criminoso? O professor Kenneth Raines está manipulando a todos? O Reverendo Beaumont tem algum segredo? O detetive Kenner está ficando louco? Há um romance entre Kenner e Angela? Quem são os satanistas? São inúmeras questões que precisam de respostas e isto faz com que tudo pareça raso ou inexplorado, mesmo quando o roteiro fornece as informações ao público.

O principal acerto é a precisão do recurso imagético, onde o diretor bebe da fórmula do “parece, mas não é“, bem como solucionando mistérios pela própria cenografia e recursos visuais presentes em cena, não necessariamente recorrendo a palavras ou diálogos. A atmosfera escura e sombria captada pelas lentes de Daniel Aranyó impressa numa paleta azulada configura a estética nublada do clima quase constantemente chuvoso do filme.

Talvez a ousadia em construir um quebra-cabeças de gêneros cinematográficos não tenha funcionado. O suspense anulou o terror que anulou o noir que anulou o filme policial e resultou num grande filme genérico com um final de deixar qualquer um enraivecido, pois era o mais óbvio desde o início.