Quem com ferro fere, com ferro será ferido.

Ditado popular brasileiro que refere-se as más ações das pessoas que um dia voltarão contra si. Na Espanha, a tradução é um pouco mais sanguinária.

Quien a hierro mata, a hierro muere.

A aproximação linguística dos idiomas torna clara a compreensão, necessária para entendermos o contexto do filme. Poucos são os filmes que impactam logo em seu título. “Corra” (Get Out!), de Jordan Peele, é um exemplo. Este é mais um, reforçado pelo encontro sempre angustiante entre Mario (Luis Tosar) e seu paciente, o senhor Antonio Padín (Xan Cejudo). Paco Plaza, experiente diretor espanhol de trabalho reconhecido na trilogia [REC],se apropria da primeira metade da frase e estigmatiza o título como um alerta ao público e aos personagens.

Mario, casado com Julia (María Vázquez), grávida de quase 9 meses, é enfermeiro de uma causa de recuperação para idosos com problemas motores e mentais. Antonio Padín é ex-traficante e líder de um cartel local. Um fato traumático para Mario, ocorrido no passado, é o elo entre os dois e é o gatilho para que este inicie sua vingança imperceptível, pois o velho torna-se cada dia mais dependente de seus cuidados. A postura de Mario lembra a do predador sorrateiro e silencioso que não mostra as garras a luz do dia e, pouco a pouco, ganha a confiança de sua presa, para, no momento oportuno, dar o bote.

Infelizmente, Paco e a dupla de roteiristas, Juan Galiñares e Jorge Guerricaechevarría, não alcançam o potencial máximo do tema por uma escolha dúbia: inserir uma guerra de contrabando de drogas entre o cartel dos filhos de Padín, Toño (Ismael Martínez) e Kike (Enric Auquer) com colombianos liderados por Sánchez (César Valdés) e chineses comandados pela Senhora Kong (Yuan Yaohun). Ou seja, a ótima aura de suspense construída pela relação bizarra entre Mario e Padín é constantemente quebrada por momentos de ação saídos de filmes genéricos, com direito até a participação da polícia.

A escolha não é pior pelo excelente elenco que sustenta a trama que se enfraquece. Ismael e Enric são excelentes e entregam uma dupla bombástica entre gritos, xingamentos e violência “tarantinesca” que por vezes pensam no bem-estar do pai, mas o grande interesse é no seu dinheiro ou no seu futuro testamento. O que, convenhamos, não é tão questionável, pelo próprio comportamento do pai mesmo com estado de saúde tão afetado.

A narrativa propõe um jogo de julgamentos com o espectador. Durante quase toda a narrativa, o ponto de ódio é voltado para Padín e seus filhos, exponenciado quando Mario faz revelações de seu passado e um volume imensurável de mágoas. Mas as ações silenciosas do enfermeiro durante toda a trama vão contra toda a ética médica e o seu dever como profissional da saúde. Mario é mais um criminoso? Ele está certo? Que se dane o velho traficante e seus filhos? São perguntas que irão acompanhar o espectador a todo instante.

Há outro jogo proposto. Este, entre os personagens. Mario x Padín. Onde, teoricamente, poderia haver apenas um vencedor. O título do filme já avisa a ambos – Quem com ferro fere… – parece que nenhum dos dois prestou atenção no aviso e estão interligados por um destino cruel que não há escapatória. Cada um tem um ferro na mão, resta saber a hora certa e quando usar para calcular o tamanho da ferida. Dependendo do impacto, pode ser mortal.

Esta dualidade, porém, não é tão profunda quanto poderia ser. E, por isso, a dependência com subtramas mais genéricas que, pelo menos, ficam mais dramáticas quando se alinham à trama principal e ganham peso. O mistério por trás da figura de Mario, que parece ser um rosto conhecido entre alguns traficantes. O embate entre ele, Toño e Xepas (Daniel Currás). As reviravoltas próximas à conclusão. Graças à boas manobras de roteiro e condução de Paco, tudo se une em torno do título do filme e todos os personagens finalmente fazem parte do ditado que dá origem ao nome do filme.

A fotografia de Pablo Rosso ganha destaque em noturnas com iluminação neon que ilustram a mudança de personalidade do protagonista e na bela fusão em flashback num filtro avermelhado num tom demoníaco e aterrorizante. Este, aliás, é um bom ponto da montagem de David Gallart. Há uma sensação que o passado nunca abandonou o enfermeiro e tudo ainda é muito marcante e sentido em sua pele.

Mais um bom filme espanhol, com um final pesado, mas com aquela sensação de menos é mais. Menos ação é mais suspense. Menos barulho é mais tensão. Menos tiroteio é mais mistério. Menos fórmula é mais originalidade.