A cinebiografia de Antônio Luiz Sampaio, o ilustre “Antônio Pitanga” segue o protagonista em encontros com familiares e principais parceiros de trabalho ao longo de seus quase sessenta anos de carreira no cinema, na televisão e no teatro. Mais que um documentário para entendermos melhor sobre seu alvo, este filme é um ode a ancestralidade e cultura africana, a começar pelo seu representante e, principalmente, se levarmos em conta sua linguagem fílmica composta por uma trilha sonora oriunda dos povos africanos, bem como a própria filmografia de Antônio Pitanga, um expoente no Cinema Novo e principal ícone da negritude no universo cinematográfico.

O maior acerto do documentário é sair do caminho mais fácil, ou seja, a famosa “chapa branca” ou “chapa fria”, que vale-se da clássica estrutura de um entrevistado falando com a câmera ou com o documentarista sobre o alvo das perguntas, que no caso seria obviamente Antônio Pitanga. O que vemos em tela é um processo quase informal e, quiçá, amador de fazer um filme. Amador, aqui, não entra no sentido pejorativo da palavra, mas no cunho de leveza, simplicidade e liberdade. As conversas sempre em tom bem-humorado e divertido, mesmo nas mais emotivas, brinca com o público e arranca sorrisos verdadeiros e tudo o que o espectador quer é ver o que mais vem adiante. A atmosfera de pureza que carrega um documentário com tantas falas poderosas de inclusão e pertencimento se mostra a melhor escolha possível, principalmente se levarmos em conta o estilo de vida do homenageado, pois é disso que trata-se Pitanga, homenagear aquele que carrega seu nome e, de certa forma, lembrar de nomes marcantes que o acompanharam em sua longa jornada.

Em suas quase duas horas de duração, temos os mais variados nomes de notório reconhecimento nacional e, alguns, de projeção internacional de vários segmentos artísticos: Chico Buarque, Caetano Veloso, Maria Bethânia (sua primeira namorada!), Cacá Diegues, Zezé Motta, Ney Latorraca, Ziraldo, Haroldo Costa, Benedita da Silva (sua atual esposa!) e vários outros nomes do cenário artístico nacional. É um elenco poderoso e todos compartilham alguma boa história ou lembrança com Antônio Pitanga. Obviamente, a família não poderia ficar de fora e, de maneira inteligente, começa e termina o documentário fechando um ciclo de herança e pertencimento, valorizando as raízes africanas da família. Há depoimentos de Clarimundo (irmão), Andréa (sobrinha), Adriano (sobrinho), da diretora e filha Camila Pitanga e de Rocco Pitanga juntamente a seus filhos, os netos de Pitanga e nova geração da família.

O documentário preza não só os relacionamentos, mas sua carreira. Ao longo das conversas e bate-papos, há vários trechos que ou ilustram o que as personagens falam ou que servem como ponte para a transição entre convidados. Há inúmeros exemplos de sua filmografia resgatados em tela: O Pagador de Promessas, Barravento, A Grande Freira, Quilombo, Rio Babilônia, Esse Mundo é Meu, A Idade da Terra, entre outros. É realmente um grande mosaico construído aos poucos com trechos que marcaram gerações e foram fundamentais para a consolidação do Cinema Novo no Brasil, bem como a inserção dos negros em papéis de protagonismo, embora tenham sido esquecidos novamente tempos depois e, hoje, a realidade é uma nova busca pela valorização no mercado de trabalho.

Divertido, com histórias saborosas e com discursos potentes, Pitanga é um documentário que tem como protagonista não só um elemento, mas toda uma ancestralidade africana dos negros brasileiros que muito tempo amarguraram a dor do chicote no Pelourinho ou morriam em navios negreiros a caminho de uma morte moral e física imposta por colonizadores. É um filme que, seja por entretenimento ou por potência fílmica, precisa ser valorizado, compreendido e apreciado como um todo.

Filme visto na no dia 26 de janeiro na 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes.