16 à 28 de outubro de 1962, período da humanidade conhecido como a Crise dos Mísseis de Cuba, uma das etapas mais tensas da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética. É neste contexto verdadeiro que os roteiristas Lukasz Kosmicki, também diretor, e Marcel Sawicki, criam a trama fictícia do professor americano, gênio da matemática e antigo Grande Mestre enxadrista Joshua Mansky (Bill Pullman) que é levado à Polônia para disputar partidas de xadrez com o competidor soviético Alexander Gavrylov (Evgeniy Sidikhin) enquanto governos dos dois países traçam suas estratégias de espionagem.

Apesar de fictícia e exagerada, a história que ilustra o período representado é factível e combina com o pressuposto da Guerra Fria. Bem como o xadrez, foram décadas de dois adversários que se digladiavam numa disputa angustiante permeada por jogos psicológicos. O protagonista Joshua Mansky é o grande foco da escrita hiperbólica da dupla. Dada uma atividade cerebral absurdamente intensa, apenas o álcool em altas doses é capaz de “humanizar” o personagem e fazê-lo funcionar como um indivíduo normal. Estamos diante de um jogador de xadrez constantemente embriagado e, ainda assim, capaz de calcular aproximadamente 10.000 movimentos possíveis em alguns segundos olhando um tabuleiro (dito verbalmente!).

Há um conflito simbólico e constante entre homem x máquina num único corpo. O contraste para esta construção, embora seja efetiva, parte de um dos maiores Grandes Mestres da história do xadrez, o americano Bobby Fischer, que sempre alegou ser um cara ligado aos prazeres do cotidiano e longe de ser um indivíduo cerebral. O que o separava dos demais, de acordo com ele, era sua dedicação para ser campeão e a concentração nos momentos necessários.

Registro histórico: em 1972, Bobby Fischer (EUA) e Boris Spassky (URSS) disputaram o 11º Campeonato Mundial de Xadrez na capital da Islândia, Reykjavik. Após 21 partidas, o americano sagrou-se campeão com o placar de 12,5 à 8,5. É considerado, até hoje, como o “match” do século. Esta finalíssima serviu de referência para os roteiristas na criação da trama de Partida Fria, então é possível categorizar como um exagero ainda maior por parte deles propor um protagonista tão problemático, quanto caricato e genial. É a famosa fórmula de compor um anti-herói perfeito.

O conceito do jogo do xadrez e os movimentos no tabuleiro, bem como a constante atividade mental dos jogadores são um microcosmo da guerra fria e porque não, da narrativa. Subtramas secundárias se desenrolam e entrelaçam na medida que partidas acontecem e é interessante notar que a cada conjunto de movimentos na mesa, situações desencadeavam-se ao lado de fora, também sempre com a participação do matemático. A narrativa perde força quando o professor deixa suas qualidades de lado e passa a agir como mais um espião ou detetive dentre os vários já presentes. Numa rede de intrigas, traições e sabotagens, os dois lados da moeda tentam contar vantagem para si, seja no jogo, seja na guerra. Mansky se vê preso nesse círculo de ódio e com poucas pessoas em quem confiar, tem de solucionar mistérios, enfrentar forças militares e evitar que o pior cenário ocorra, tudo tentando salvar a própria pele.

A atmosfera mais sombria de suspense é relegada à um frenesi mais próximo da ação e todo o entendimento que se tem do protagonista cai por terra. Um sujeito pautado em estratégias passa a agir por impulsividade, indo completamente contra o perfil construído. Desta transição em diante, a produção não consegue mais acessar a atmosfera de angústia anterior e toda o imagético escurecido e frio perde um pouco de sentido em troca de sopapos, tiros e alguma correria.

São muitos personagens. Alguns desnecessários, outros seguindo fórmulas clichês. O espectador fica um tanto quanto confuso sem saber direito para onde olhar e de onde esperar mais algum elemento integrante da façanha de Joshua Mansky. Como sempre, os militares russos são absolutamente turrões, frios e calculistas. O contraste está em Gavrylov, polido e educado. Os americanos, por sua vez, com a famosa autossuficiência de conhecimento bélico e militar sendo constantemente surpreendidos por alguma surpresa do inimigo. Fora núcleos, há tantos outros secundários que sequer contribuem com o avanço das cenas. Parece haver uma necessidade de provocação pelos gastos com o militarismo e com a guerra e a enorme quantidade de gente envolvida, algo que continua até os dias de hoje em potências de escala global.

Apesar das questões narrativas e estruturais, estética e imageticamente o filme beira o impecável. O destaque vai para o Desenho de Produção de Allan Starski na imersão do espectador na Varsóvia (capital da Polônia) na década de 60. Ambientes externos críveis, riquíssimos e detalhados trabalhos internos e fidelidade temporal que resultam numa beleza quase poética são atributos que configuram a ótima estrutura artística da obra. A cenografia de Inga Palavz, em especial no Palácio da Cultura e Ciência e, porque não, nos gabinetes de guerra dos países, também se realça e é eficaz em informar visualmente ao público o período histórico em questão.

A fotografia de Pawel Edelman é sempre escura, fria e de baixa saturação. Não poderia ser diferente. O filme se passa durante a Guerra Fria num dos anos mais complexos politicamente, a linguagem não poderia ser diferente. Junto ao diretor Lukasz Kosmicki, compõe enquadramentos que elevam o xadrez à um patamar superlativo, pois é a ferramenta capaz de cessar ou piorar a guerra. Milhões de vida dependem da atuações de dois únicos indivíduos isolados em seus pensamentos. Mansky, aliás, é sempre capturado pelas lentes de modo enclausurante. Com pouco espaço para mover-se e muitos close-ups, é nítido que o diretor busca expor o constante estado de atividade mental do professor, bem como a insegurança com tamanha responsabilidade.

Lukasz Targosz tem um trabalho árduo, mas competente. Sua composição garante uma orquestração bélica para os momentos de espionagem, com muita marcação rítmica e sons graves; há momentos de sons mais estridentes que ecoam em momentos de ação e há lindas pausas em situações de absoluto drama e tensão que antecedem um movimento decisivo no tabuleiro. É uma sonorização genérica, mas bem executada e que garante bom ritmo.

Se o diretor Lukasz Kosmicki estivesse disputando uma partida de xadrez e Partida Fria fosse seu último movimento, o jogo terminaria empatado. Entre clichês, exageros narrativos e riquíssimo trabalho visual e artístico, há potencial para mais uma rodada.