O longa-metragem de animação de Ale McHaddo é baseado na série homônima, criada por ele mesmo, que é exibida na televisão desde 2013. Vencedor da Mostrinha Tiradentes há alguns anos atrás com o seu curta “Lasanha Assassina”, ele retorna ao festival com uma prequela do simpático Osmar e como ele vira um astro do show-business.

Logo na introdução, é perceptível o tom “pastelão” que tem a comédia infantil. Numa canção peculiar sobre a fatia do pão de forma, temos todo o processo da criação de um pão por um padeiro profissional. Quase uma ode em homenagem a este alimento tão adorado pelos seres humanos, exceto pela primeira fatia, que muitas vezes é ignorada e vai para o lixo por ser mais “cascuda”. E a história se passa sob esta mesma ótica de preconceito, mas num mundo de pães e seus coirmãos, tais como queijos e biscoitos, por exemplo. Há, escrachadamente, referências à cultura POP e seus principais ícones e influenciadores dos dias de hoje e até do passado.

De cara, temos uma ideia de quem é o pobre Osmar. Sempre desconsiderado e alvo de chacota, tem em seu primo Oscar como um ator de novelas e astro da Trigoflix. Além disso, acumulou várias funções em sua vida, sempre as piores: era goleiro de Trigobol do pior time do campeonato e a meta era sempre a mesma, defender o máximo de bolas possíveis para alcançar o 0x0. Num certo jogo, foi perfeito até o momento em que a bola caiu em suas costas e ao levantar-se do chão, a empurrou para dentro do gol. Tentou a vida como assistente de circo, sendo o “alvo” para um atirador de garfos iniciante e cuidador de “rocamboles”, que na verdade eram hipopótamos com recheios fedorentos. Querendo mudar de vida, nosso protagonista que fica sempre no quase parte para Trigueirópolis em busca de uma vida melhor.

A partir daí, temos a inserção de um vilão. Há uma briga entre a emissora “Leite TV” e a Trigoflix, que cada vez mais ganha fatias de sua audiência. Benny Emmenthal resolve infiltrar-se na Trigoflix para sabotar a novela e a programação da empresa. Osmar exita em procurar seu irmão, mas cede e passa a trabalhar na equipe de produção. Lá conhece a famigerada baguete Steve. Ambos desenvolvem um laço de amizade e, por um acaso do destino, ambos são responsáveis pela maior audiência da Trigoflix. Certo de que estes podem ser a ruína da empresa, são contratados pelo vilão Emmenthal para produzirem a série “Escola de Pãopiros”, ideia de Steve e que conta com baixíssimo orçamento e um grupo de atores nada convincente.

Com uma temática infantil, transborda referências aos adultos e, porque não, piadas. Afinal, os mais velhos também gostam desenho e bem, as crianças vão ao cinema com os pais. McHaddo, sabendo disso, inteligentemente injeta conteúdo para os mais velhos e a animação torna-se agradável para todo mundo. Os traços do desenho seguem uma estética cartunesca com assimetrias e formatos bizarros. O cenário é sempre estático com objetos em segundo plano de proporção inferior aos personagens, que sempre destacam-se numa relação 3D, mas que nitidamente passa a impressão de estarmos diante de um quadrinho, como as animações áureas dos anos 90.

A característica transloucada da dublagem incomoda. Sempre aos berros e vozes estridentes em todos os personagens, destoa de seus traços. Mas tudo é possível, já que estamos num mundo de pães onde o protagonista é uma fatia de pão de forma ignorada por toda a sua vida e que tenta ser reconhecido como um pão de verdade. A animação, mesmo construída sob ótica e estética infantis, compreende uma mensagem importante de aceitação e de reconhecimento, que por mais “diferente” que seja, todos têm as suas qualidades e não merecem ser vítimas de preconceito de uma sociedade que busca uma perfeição que não existe. É um filme para toda a família e vale a pena ser visto para quem gosta de um bom desenho animado.

Animação vista no dia 25 de janeiro na 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes.