O filme escolhido como abertura da 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes é um projeto independente capitaneado pelo diretor e roteirista cearense Rosemberg Cariry, que, ao utilizar-se de uma analogia metafórica a passagem bíblica do antigo testamento do personagem “”, encarcera a sociedade em geral, exceto aqueles de grandes posses, como indivíduos marginalizados e expostos ao lado maligno dos homens. Não há o que diferencie os povos, sejam eles judeus, palestinos, indígenas, negros africanos ou a camada pobre. Todos estão aglutinados numa enclausurante realidade onde escapa aquele que os utiliza como subservientes, ou seja, a elite. Trata-se de um olhar que se aproxima do documental, onde o autor expõe sua opinião sem temer alguma reação negativa de uma audiência que sinta-se impactada.

Deixando a trama momentaneamente de lado, é preciso embarcar e entender o conceito por trás do filme. Por toda a sua duração, é exposto que trata-se de uma linguagem construída sob os aspectos da arte barroca, mais especificamente o “transbarroco”, termo explicado de modo didático numa sala de aula. Bem como a sociedade brasileira, a arte transbarroca diferencia-se por sua miscigenação, ou seja, são transposições mestiças da arte original com um quê de brasilidade. A ideia é contextualizar a arte numa realidade de cores, formas e origens brasileiras. O questionamento que esta escolha traz para a cinematografia é perder-se por trás de um conceito artístico, tornando-se difícil de digerir, ainda mais quando o que temos em tela é um produto com tantos erros quanto acertos num certo desequilíbrio fílmico.

A narrativa se passa integralmente na cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais, justificado pela estética barroca e é centralizada em Samuel (Daniel Passi), um estudante de cinema da FAOP (Fundação de Arte de Ouro Preto) de Antonio Dias. Ao mesmo tempo que busca inspirações para seus trabalhos e tem no barroco uma influência artística, busca o paradeiro de seus pais e vive dois amores diferentes: um amor platônico com Yasmina (Daniela Jesus), uma palestina refugiada no Brasil e Helena (Romi Soares), uma senhora francesa radicada no Brasil. O que começa promissor, mesmo com defeitos técnicos evidentes (mixagem sonora, por exemplo!), torna-se bizarro, totalmente dependente em diálogos didáticos e entrega-se à técnica do facilitismo do roteiro a torto e a direito, sempre buscando retirar as principais emoções do público da maneira mais óbvia e impactante.

Nas sitcoms, especialmente as brasileiras, há uma estrutura a ser seguida de uma média de 3 ou 4 piadas por minuto. Um exagero, mas que funciona a depender do público. Cariry faz em seu filme algo similar, mas com frases de efeito e discursos prontos e pré-elaborados de convencimento, claramente com olhar tendencioso de modo a jogar o público contra a parede e ignorando sua inteligência e capacidade de entendimento. O que piora, neste aspecto, é o modus operandi que funciona esta engrenagem. O texto é tão artificial e carregado de discurso que os atores, mesmo com esforço, em sua maioria tem um desempenho sofrível. Exceto por Samuel, que transmite melhor as emoções e soa crível, os demais estão perdidos e inexpressivos tentando justificar suas falas repletas de informações alegóricas.

No avançar da narrativa temos dois núcleos onde seus protagonistas nunca convergem-se, de fato. No lado de Samuel, temos a estranhíssima relação dele com Helena, que desenvolve-se baseada no interesse mútuo pelas artes e pelo barroco; suas conversas com Efias Levy (Everaldo Pontes), um judeu sisudo e orgulhoso, defensor de Israel, que justifica suas escolhas com imagens fortíssimas do holocausto com o único intuito de chocar o público e que estuda a genealogia de Samuel para ajudá-lo a encontrar o pai e, por último, o dono de uma livraria e sobrevivente de um campo de concentração, interpretado por Antônio Pitanga. Do outro lado, Yasmina, que pretende liderar um protesto pacífico à favor da Palestina tem em seu irmão Kamal (Hadi Bakkour) o seu principal opositor, pois este defende um ideal de luta e agressividade contra os israelitas. Ela conta com o apoio de seus amigos de trabalho e tem em Joana (Bruna Chiaradia) uma espécie de braço direito e ombro amigo. Isso sem contar com a relação sem emoção alguma, entre o restaurador vivido por Rocco Pitanga e a professora, principal vetor de didatismo do filme, interpretada por Silvia Buarque.

É neste contexto, que se objetifica em discursar a favor de minorias antes de qualquer outra coisa, que temos uma espécie de metamorfose com fábulas e obras históricas dentro dos próprios acontecimentos, mais diretamente “Romeu e Julieta” e “Édipo-Rei”, o que tira todo o peso central e argumentativo da premissa. Não suficiente, dentro de todo este amálgama artístico num texto pobre há de se ter uma associação óbvia à principal característica metalinguística da obra. O barroco, muito reconhecido por seus mosaicos de cores vibrantes, ganha uma releitura no filme com justificativa de ilustrar alterações comportamentais e psicológicas do protagonista. Numa parede em sua casa, Samuel, através de colagens de fotografias, cria um mosaico ao longo do filme, onde a cada passagem ganha mais imagens. De um lado, a resultante do holocausto, do outro, os negros africanos escravizados, ao centro, a imagem da sua musa inalcançável, Yasmina, que durante o dia vive somente com o rosto de fora e a noite desnuda-se e tira fotos sem roupa para Samuel.

Os conflitos, resoluções e reviravoltas perdem peso. Suas forças são engolidas por uma tsunami artística injustificável. O que deveria tocar no âmago de cada um e causar reflexão no público como um ponto de ebulição ao enxergarmos-nos como comida aos leões, evoca a pura sensação de estranhamento e debate, não pelo seu conteúdo, mas pela sua forma, o que, no fim das contas, invalida os seus discursos. Talvez, Cariry poderia ter refletido e lembrado do velho ditado que diz que “uma imagem vale mais do que mil palavras”.

Filme da “Mostra Homenagem”, visto no dia 24 de janeiro na abertura da 23ª Mostra Tiradentes. Agradecimentos a Universo Produção.