Com o drástico aumento das produções audiovisuais promovidas pelo streaming (Netflix, Amazon Prime Video, HBO, entre outros), há um cardápio cada dia mais variado. Assim como num restaurante completo, onde há a subdivisão em entradas, saladas, massas ou carnes, por exemplo, um bom serviço oferece filmes e séries dos mais diversos gêneros. De fato, há ótimos exemplos de temática medieval mas, em geral, há uma tendência a se observar características comum à todos: carnificina, nudez, traições (um plot-twist atrás do outro) e cenas grandiosíssimas, seja com centenas ou milhares de figurantes ou com efeitos especiais caríssimos. Há outra fórmula de sucesso: um certo ritmo acelerado. Pouca conversa e muita batalha. De certa forma, O Rei oferece o que há de “melhor” no mundo medieval, mas numa linguagem de diálogo dominante, onde palavras são muito mais afiadas que toda e qualquer lâmina.

Adaptado da peça Henry V, de William Shakespeare, o filme segue o estilo narrativo do escritor quando este se aventura pelas tragédias. O ritmo é lento e cria uma amargura constante que não abandona a trama. Os roteiristas Joel Edgerton e David Michôd dramatizam cada camada da jornada a tal ponto que até mesmo Sir John Falstaff, interpretado pelo próprio Joel, um personagem bêbado e falastrão, é caracterizado como um homem que carrega um fardo pesado da vida ex-combatente, marcado pelas vidas que tirou em campos de batalha. Não há espaço para alívios cômicos. O Delfim Francês (Robert Pattinson) não pode e nem deve ser confundido com isso. Seu linguajar de inglês com sotaque é de deboche, de ridicularização de um jovem rei, Hal / Henrique V (Timothée Chalamet), que outrora jazia bêbado na taverna e pelos cantos da cidade na companhia de Falstaff e Beale.

Hal foi criado longe da corte, ao contrário de Thomas, (Dean-Charles Chapman), seu irmão . Seu pai, Henrique IV (Ben Mendelsohn), era um déspota e havia retirado seu primo Ricardo II do poder. Seu violento reinado foi marcado por conflitos internos e guerras civis. Ignorando estudos históricos e aventurando-se pela fantasia de Shakespeare, Michôd e Edgerton trocam alguns eventos em relação à datas históricas, mas nada que prejudique a experiência como um todo. De modo geral, ajuda a moldar o caráter do herdeiro do trono. Idealista e com boas intenções, paulatinamente descobre o quão ácido e mortal é o círculo de confiança de um rei.

David Michôd submete o espectador a um constante olhar de contemplação. Fosse uma leitura, esta seria uma poesia. A câmera varia de estática à suaves movimentos que caminham pelos cenários e paisagens sem nenhuma pressa. Seja um suntuoso salão iluminado por belíssimos lustres com uma mesa farta ou num amontoado de guerreiros da infantaria debatendo-se até a morte num terreno encharcado pela lama da chuva do dia anterior, tudo parece numa temporalidade diferente. O olhar do ódio, a respiração ofegante, a espada que dilacera, o sorriso sarcástico, a saliva em seco… tudo é elevado à uma potência subjetiva que depende única e exclusivamente da imersão do espectador. O quão este aceita a construção imperativa do diretor é essencial para calcular o efeito da sensibilidade de cada personagem em si.

Tal poesia audiovisual não seria possível sem uma belíssima trilha sonora para conduzir cada movimento da câmera, que flui com padrão e leveza. Nicholas Brittel compõe, com instrumentos de cordas, característicos da época, uma música que conduz quase sem pausa toda a narrativa. É por ela que a câmera flutua, que os atores caminham, que os cenários são revelados e paisagens construídas. Se a reconstrução da Batalha de Azincourt é tão épica quanto foi e tão esteticamente rica, muito deve-se à sintonia entre direção e trilha sonora.

A fotografia de Adam Arkapaw é fechada, crua, cinza e escura. Ao contrário de outras obras, onde a ideia é passar um certo grau de riqueza da monarquia e a arquitetura da época, aqui o papo é outro. O foco imagético é justamente idealizar o quão isolado e cercado de homens inconsequentes um único homem pode estar. Mais que isso, o quanto este homem, o rei, deixa seu pior lado em evidência e abandona sua aura de bondade. O figurino de Jane Petrie reforça este argumento. Os seguidores e homens teoricamente leais ao rei estão de cinza ou cores neutras… de certo modo, a cor da dúvida. É culpado ou inocente? Nem sequer os homens da igreja estão totalmente de branco, suas vestes são sempre amareladas e encardidas: seria a sujeira da traição? O rei, quando não de cinza, está de vermelho. O alvo! Alerta, cuidado!

Timothée Chalamet está em altíssimo nível e sobe de patamar desde que assume a coroa. Rompendo completamente com os fantasmas do passado e na necessidade de exercer seu poder perante homens notoriamente traidores e interessados em seu trono, encontra na frieza da melancolia a transição perfeita para um jovem com decisões difíceis à frente. Sem espaço para lamentações, contestado por seu povo e alvo de gozações de países vizinhos, Hal tem a árdua missão de ser um rei justo, leal com seu povo e temido por seus rivais, nem que para isso chegue às últimas consequências.

O grande “senão” está justamente na figura do Delfim Francês (Robert Pattinson). Fugindo completamente da estrutura de personagens, da linguagem e da estética, o potencial do ator é subaproveitado para um personagem que, embora não seja um alívio cômico propriamente dito, exagera absurdamente no sarcasmo ao ponto de perder completamente sua seriedade. Após uma introdução promissora com um discurso intrigante, sua participação é relegada a um diálogo um tanto quanto clichê e uma cena típica dos filmes de comédia pastelão. Não que não haja espaço para este tipo de personagem, mas quando se quebra completamente o discurso fílmico, este é um equívoco. Caso fosse mais refinado e levado a sério, seria mais um bom trabalho do ator, que deu o seu melhor.

O Rei é um belíssimo filme que foge da narrativa convencional do monarca estúpido que aniquila seu povo a seu bel prazer. Pelo contrário, como uma fábula caótica, trabalha o argumento de que homens convencionais podem ser tão ou mais perigosos que um jovem idealista com o poder nas mãos.