O Poço é um dos melhores filmes disponíveis na Netflix. Um thriller psicológico com bastante sangue e repleto de cenas de embrulhar o estômago. Mas, óbvio, é muito mais do que isso. Narrativa envolvente, personagens misteriosos e cenário perturbador são alguns dos pontos a se destacar deste longa-metragem que com refrescante originalidade, traça uma analogia com a própria sociedade.

A história é simples. Goreng (Ivan Massagué) é um recém-chegado a uma estrutura prisional com centenas de níveis. Em seu andar está o velho Trimagasi (Zorion Eguileor), que lhe apresenta regras e funcionamento do local. Ambos estão no nível 48. Em cada pavimento ficam sempre dois prisioneiros. Uma vez ao dia, uma plataforma com dezenas de alimentos entre carnes, salgados, doces, frutas, pães e bebidas passa por todos os andares. Tal como a narrativa, o mecanismo do sistema também é simples. Quanto mais próximo do topo é o nível, melhor o indivíduo come. A cada mês, todos acordam num nível diferente.

É nesta simplicidade que o diretor Galder Gaztelu-Urrutia, em conjunto com os roteiristas David Desola e Pedro Rivero, criam um contexto de facílima imersão. É impossível não se sentir enclausurado constantemente junto aos personagens. A todo momento, nos sentimentos presos naquela realidade transloucada, vítimas do mesmo sistema e do próprio comportamento errático humano.

O diálogo, num filme que não faz questão de encher muita linguiça com questões desnecessárias, é a ferramenta mais reveladora. É através dele que aprendemos o mínimo do passado de cada personagem e onde as principais revelações são feitas. Seja de alguns mistérios dos próprios Goreng e Trimagasi, do próprio histórico da estrutura ou até de outros prisioneiros. Miharu (Alexandra Msangkay), por exemplo, é uma mulher de aspecto oriental que todos os meses desce até o nível mais baixo à procura de seu filho. Há uma regra, porém, que proíbe a entrega de menores de 16 anos.

Conforme a narrativa se encorpa e fica evidenciada toda a carnificina lá dentro, a associação com a formação socioeconômica dos povos fica mais evidente. Quem está em cima quer permanecer em cima e não liga para quem está em baixo. Bem como quem está em baixo, se tiver que agir de maneira ilícita para sobreviver, assim o fará. O ato do canibalismo, por exemplo, nada mais é que uma alegoria ao comportamento marginal. O que lhe resta fazer quando não se tem comida? Em O Poço, é matar o colega de cela e comer a sua carne. Na vida real, é roubar, sequestrar, matar também. O próprio filme, porém, faz questão de não justificar ou apoiar esses comportamentos. Em diálogos de Goreng e Trimagasi isto fica claro.

Há uma crítica nada sutil à desvalorização que a cultura e a classe artística em geral sofre. Uma regra permite aos prisioneiros levar um único objeto para o seu convívio diário. Por mais de uma vez, Goreng é repreendido por escolher um livro de Dom Quixote. Afinal, no que páginas de papel podem ajudar lá dentro? Trimagasi, por exemplo, tem uma faca que, quanto mais utilizada, mais afiada fica. Num ambiente absolutamente propício à insanidade, é exatamente na leitura que o protagonista encontra o pouco da lucidez e da motivação para persistir e sobreviver.

Após perturbadores e traumatizantes meses com Trimagasi, Goreng tem uma convivência de altos e baixos com Imoguiri (Antonia San Juan), funcionária da “Administração” que está lá por conta própria. Ela tenta implantar, pacificamente, o sistema de rações. Para isso, precisa convencer, diariamente, a dupla do andar inferior a comer os pratos preparados por ela. Todo o andar deve ter a mesma atitude para que mais pessoas de níveis inferiores tenham a possibilidade de se alimentar. Ela denomina o processo como “Controle de Autogestão”.

O grande paradoxo desta fórmula está em, primeiro, depender obrigatoriamente de quem está acima. E, na prática, quem está acima é intocável. Além disso depende de alguns fatores de quem está abaixo. Educação e boa vontade. Atributos que não existem em tal realidade distópica e desesperadora. Ou seja, mesmo que na teoria seja válida, nunca funcionaria, pois depende do tangível e do intangível. Mais que isso, depende da assimilação de pessoas desmotivadas e contrárias, movidas unicamente por instinto, como animais.

Em estado moribundo e a beira da morte, Goreng acorda no nível 6 e encontra na energizada figura de Baharat (Emilio Buale) um parceiro ideal para executar um plano de alimentar todos os andares. Após um encontro com Sr Brambang (Eric L. Goode), uma espécie de sábio, os dois realizam que de nada adianta cumprirem o plano se não passarem uma mensagem e, a partir daí, focam seus esforços em deixar um recado para o “Nível 0“, o mais próximo da “Administração” e aquele que é possível alcançar com a própria voz.

Brambang pode ser compreendido como um Gandhi. Um líder pacifista que caminha pelo diálogo antes da guerra, mas que não foge dela se necessário. A partir daí, o filme ganha um contorno mais surrealista e abstrato, onde elementos, personagens e cenários funcionam como uma grande pintura interpretativa e talvez cada um cavalgue por um terreno diferente. Esta linguagem, por sinal, é uma pequena falha numa estrutura extremamente funcional. Não por ser confusa, nada disso. É reflexiva e desafiadora, mas pouco intensa, pouco provocativa, ao contrário de todo o amálgama textual e imagético do filme.

As atuações são absolutamente diversificadas e de primeiro nível, o que facilita a fluidez da obra. O estudioso reflexivo (Goreng), o psicopata canastrão (Trimagasi), a assassina misteriosa (Miharu), a assistencialista incansável (Imoguiri), o guerreiro honrado (Baharat), o sábio conselheiro (Brambang). Cada arquétipo é desconstruído de modo a criar um modelo virtuoso e crível que se há no cotidiano e em retratos da sociedade.

Quanto à aspectos técnicos, é uma obra irretocável. A partir dos créditos iniciais, o som que marca o tempo, uma constante absurda. Sons mecânicos e industriais como um grande mecanismo sendo operado. Mesmo a música soa como uma grande máquina. É um brilhantismo de Aránzazu Calleja e é a força sonora do filme que coloca a todos nós dentro deste grande invólucro sanguinário que nos prende por 1 hora e meia.

A fotografia de Jon D. Domínguez, na ótima extravagância da dualidade do azul com o vermelho. O alerta, a fome, a emergência. A solidão, a tristeza, a paranoia. Com a sonoridade, cria-se um visual sufocante que causa repulsa. Combinado aos enquadramentos fechados de Urrutia, com vários closes e personagens apertados em cenários claustrofóbicos, a noção de pouco espaço com um precipício no meio é uma constante sensação de perigo que ronda a todos, ainda mais com os corpos que caem constantemente em meio à suicídios e assassinatos.

Destaque também para o absurdo contraste na arte de Azegiñe Uigoitia. Nos poucos momentos fora do poço, em cenas belíssimas na cozinha e a incontável quantidade de pratos, ornamentos, talheres, louças; os figurinos de cada prisioneiro aos trapos e roupas rasgadas e o “vazio” cenográfico. Tudo isso valorizando um austero trabalho de contrarregragem e continuidade. Combine, claro, o esforço hercúleo da turma da maquiagem capitaneada por Amaia Zaballa, não apenas pelo volume de sangue, mas pelos antes e depois de cada personagem e como o período de clausura afeta olhares, cores, pele e cabelo.

Analisando superficialmente, é categórico afirmar que a produção espanhola é contra o capitalismo. Mas o filme reserva mais do que isso. Na realidade, o texto brinca consigo mesmo e por vezes fala justamente o oposto. A problemática não está no sistema, mas naqueles que dele vivem. Há um exercício de reflexão importante: não há sistema correto quando as pessoas pensam em si mesmas. O Comunismo falhou em diversos países asiáticos e africanos, bem como o Fascismo falhou, em geral, na Europa e nas Américas; não há sistema certo na base do individualismo.

Tendo tudo isso em mente, um fato é óbvio (palavra que Trimagasi mais gosta!): assista, urgentemente, O Poço.