Em 1977, o diretor francês Roman Polanski foi indiciado, na cidade de Los Angeles, por cinco crimes contra a menor de idade Samantha Jane Gailey: estupro com uso de drogas, perversão, sodomia, atos libidinosos com menor de 14 anos e fornecimento de drogas controladas a uma menor de idade. Em 1978, algumas horas antes de ser sentenciado, Polanski fugiu para a França e, desde então, evita frequentar países que o deportariam para os Estados Unidos.

Recentemente, O Oficial e O Espião, seu mais recente filme e alvo de análise deste texto, recebeu dois prêmios na 45ª edição do César, uma espécie de Oscar francês: melhor diretor e melhor adaptação. Além disso, foi indicado em outras duas categorias: melhor filme e “César des Lycéens”. O fato ficou, desde então, conhecido como “César da Vergonha”. O maior desafio desta resenha, principalmente devido protestos de manifestantes e abandono da premiação por atrizes e profissionais do cinema francês, é analisar a obra ignorando o seu artista; ou, ao menos, relevando seu péssimo e, porque não, criminoso passado.

O Oficial e O Espião é um roteiro adaptado do livro homônimo de 2013 do escritor e ex-jornalista da BBC, o britânico Robert Harris, que resgata a história de Alfred Dreyfus (Louis Garrel), um dos poucos judeus do exército francês, injustamente acusado de traição pela alta cúpula militar. A cidade é Paris, o século é 19. Em 22 de dezembro de 1894, julgado a portas fechadas, o capitão é sentenciado à prisão perpétua no exílio na Ilha do Diabo. Georges Picquart (Jean Dujardin), militar e investigador, decide seguir as pistas para desvendar o mistério por trás da condenação do Dreyfus.

Ao contrário do que sugere a publicidade do filme e até o seu trailer, não estamos diante de um filme que acompanhamos dois personagens em busca por respostas e resolução de seus conflitos. Polanski dirige seu olhar especialmente à Picquart, o coronel militar e católico, de patente acima de Dreyfus, que não irá descansar em busca da verdade, sejam suas motivações e atitudes éticas ou não. O judeu, diga-se, é praticamente esquecido após a belíssima introdução do Primeiro Ato, onde sofre a degradação militar: sua espada é quebrada, seu uniforme desabotoado e sua patente perdida.

Sob a ótica de uma sociedade que não tinha informações sobre o paradeiro de um homem que passou anos em isolamento no exílio numa prisão numa ilha remota, faz sentido que o diretor opte por esconder o personagem, resgatando-o em textos, subtextos e pequenas cenas contemplativas. Mesmo que Louis Garrel mereça uma presença de mais evidência, seus poucos momentos são repletos de brilhantismo, com um rosto pesado e marcado pela injustiça de sua própria classe por preconceito religioso.

O filme acerta em quesitos técnicos importantes: Direção; Roteiro, também de Polanski; Fotografia, de Pawel Edelman, a excelente Direção de Arte de Jean Rabasse em conjunto com o trabalho de Figurino de Pascaline Chavanne e, obviamente, as atuações de grande parte do elenco, com destaque para Jean Dujardin, cujo protagonismo é condutor da narrativa mesmo nos momentos mais engessados. Cabe mencionar a precisão da equipe de maquiagem na caracterização de Louis Garrel, que ficou irreconhecível e envelhecido.

Poucas são as obras que interligam Direção, Fotografia e Direção de Arte com tamanha sincronia como é perceptível em O Oficial e O Espião. Para onde aponta a lente da câmera há uma construção imagética resultante da iluminação e concepção artística que se aproxima do Barroco e do Neobarroco. Este último, inclusive, tem conotação patriótica o que, mesmo as avessas, está presente na narrativa. Os tons amadeirados da mobília clássica, os feixes de luz dos vitrais e grandes janelas com a paleta bastante contrastada funcionam perfeitamente para o retrato de um filme de época. Uniformes, peças de roupas e adereços tanto dos personagens quanto da figuração têm um forte poder de imersão na imagem.

A condução do roteiro com a câmera que observa o ator e valoriza seu trabalho corporal e de expressões, em vez de posicioná-lo com cortes ininterruptos, é um fator determinante para a interação entre o elenco. Soma-se a isso uma potente verborragia na acertada escolha pelo uso do idioma. Em geral, os produtos americanos tendem a traduzir tudo para o inglês o que, por vezes, faz-se perder o valor histórico e geográfico da trama. Polanski acerta em valorizar e utilizar a língua do país de onde aconteceu o fato, o francês.

É dentro do próprio roteiro que encontra-se algumas falhas (ao menos questões discutíveis!). Por exemplo, a inserção da personagem ficcional Pauline Monnier (Emmanuelle Seigner). A culpa, definitivamente, não é da atriz, que faz um trabalho digno mas, definitivamente, não há nem química nem necessidade de se criar um relacionamento duvidoso e discutível com Georges Picquart, um clichê bastante usual de adaptações. É de se discutir também o elevado número de personagens que causa um inchaço em alguns momentos e impede que algumas relações se aprofundem, tendo textos rasos e esquecíveis.

Seguindo a tendência da filmografia europeia, Polanski arquiteta uma linguagem observativa, o que causa um certo incômodo por seu recorte rítmico. As 2 horas e 16 minutos de filme são divididas em duas partes quase idênticas. Na inicial, uma discutível escolha de acompanhar o passo a passo de Picquart em sua investigação. Há uma sensação de mais do mesmo e de um andamento que se perde na necessidade de ser óbvio e redundante, quase como um dramalhão. Na segunda metade, talvez na ansiedade pela libertação de Dreyfus, Polanski e Hervé de Luze, editor, conjecturam cortes e planos mais acelerados e próximos de um thriller, o que resulta num desbalanceamento.

J’Accuse, título original que faz referência ao artigo de jornal escrito por Émile Zola (André Marcon), aprofunda-se na pesquisa e, mesmo que numa cinematografia há uma certa liberdade, Roman Polanski segue o caminho mais preciso e narra um episódio triste da história francesa.

Resta saber se o diretor de 86 anos quer provocar a sociedade, certa de todos os seus crimes. E se ele fosse inocente? Neste caso, prefiro acreditar na justiça e nas investigações de 43 anos atrás.

Filme assistido em cabine do imprensa no dia 04/03/2020 à convite da Sinny Assessoria e Califórnia Filmes.