Embora dê significado final à construção imagética e textual, a fotografia não é a semântica que traduz a mensagem do filme. O grande simbolismo por trás dela é o paradoxo de compreensão entre dois olhares por trás de uma mesma câmera. De um lado, Paul Ricken (Richard van Weyden), membro da equipe da SS e fotógrafo oficial do campo de concentração de Mauthausen-Gusen. Do outro, Francesc Boix (Mario Casas), um jovem veterano da Guerra Civil Espanhola e fotógrafo preso pelos nazistas. As mesmas fotos, os mesmos corpos, os mesmos cenários… sentimentos e interpretações completamente diferentes. Para os alemães: propaganda, conquista, ridicularização e vitória. Para os prisioneiros: todo e qualquer sentimento negativo à espera da morte certa.

Desde a cena introdutória, a diretora Mar Targarona expõe a crueldade presente na visão artística de um oficial nazista. De olhar apurado e sempre objetificando os presos como componentes de suas cenas, é detalhista em simetria, profundidade, expressão facial e espaços. Pouco importa se a situação é conflitante para os seus auxiliares, prisioneiros como os homens expostos na foto. Ricken não compartilha sentimentos e defende-se sob a tese do “…eu não pratico agressões e nunca matei ninguém“. São encenadas diversos enquadramentos e situações dantescas que o espectador duvida do que está vendo, certo de que tudo não passa de ficção. O grande trunfo da produção é a qualidade da pesquisa.

A inteligência do roteiro de Roger Danès e Alfred Pérez Fargas fica explícita nos créditos finais. O espectador toma um tapa de pelica no meio da cara e é habitual ficar boquiaberto. Com sagacidade, em meio a situações ficcionais inseridas num contexto histórico, tudo se encaixa em meio a fotografias que de fato existiram. Diálogos, cenas e relacionamentos são construídos partindo de registros imagéticos do próprio prisioneiro e de seu chefe / algoz. Quando o ceticismo leva a crer que “não é possível que isso tenha ocorrido” (mesmo num microcosmo nazista), o registro histórico está lá para comprovar. Não criar uma realidade paralela, entre fotos e retratos inventados da cabeça de uma diretora ou de roteiristas transloucados, é importantíssimo para validar toda a experiência fílmica obtida do material de campo.

Há apenas dois meses no campo de concentração, Francesc é protagonista e narrador do filme, o que leva a um certo didatismo no primeiro ato. O espectador é apresentado as estruturas de Mauthausen, aos oficiais nazistas e aos prisioneiros que são diferenciados por triângulos coloridos de acordo com suas nacionalidades. Exceto pelos Kapos. Esses são grandalhões com cassetetes na mão que exercem o papel de guarda e, em geral, são de nacionalidade alemã. Em absoluto contraste à seu antagonista, Ricken, Francesc carrega um olhar intimista e de zelo. Ao saber que o pai do menino Anselmo (Adrià Salazar) é enviado para Gusen, subcampo de Mauthausen onde todos eram mortos, este assume uma postura de proteção, como um irmão mais velho, embora nunca revele para ele o que é Gusen, de fato. Há uma semelhança com a afetividade em meio ao caos de “A Vida é Bela“, de Roberto Benigne.

Os oficiais da SS são naturalmente odiosos, o que não deixa de ser um baita de um clichê. Exceto pelo inexpressivo e neutro Paul Ricken, Franz Ziereis (Stefan Weinert) e Karl Schulz (Luka Peros) são temidos e seus métodos são absolutamente cruéis. A qualquer tentativa de fuga ou desobediência, castigos (como prisioneiros nus em temperaturas de -30°C), execuções em massa e extermínio são de praxe. Tudo sempre capturado pelas lentes de Ricken, que encontra beleza e plasticidade no sofrimento dos prisioneiros.

Na tentativa de sobrevivência e não querendo utilizar-se da força bruta, é na fotografia que encontra sua chance de sair vivo enquanto torce em segredo para os Aliados (Estados Unidos e Reino Unido) junto à seus amigos do Partido Comunista da Espanha. Tudo se encaminha como planejado, quando certo dia descobre que a maldade nazista é muito pior que todos os espanhóis imaginavam. É quando desenvolve o plano de esconder os negativos dos filmes de Paul Ricken como prova testemunhal de todos os crimes dos alemães subordinados à Hitler.

O carregado drama de Mar Targarona tem espaço para lampejos de comédia e momentos de suspense bem construídos. Embora um pouco elástico no segundo ato, é essa temporalidade que nos faz refletir sobre as condições de vida sub-humanas dos presos. Imagine como cada minuto deve ter sido sofrido ou contado com amargura e ansiedade. De certo modo, torcer para uma aceleração da obra não é necessariamente um equívoco, mas uma concepção de tempo diferente. Franscec precisa fugir! Os Aliados precisam chegar logo! Mauthausen-Gusen foi o último campo libertado pelas forças americanas e foram recebidos com faixas de apoio pelos espanhóis.

Aitor Mantxola (Diretor de Fotografia) e Mar Targarona, através da linguagem básica de composição, desenham “belos” quadros onde o nazismo está sempre em posição de superioridade em relação aos prisioneiros. Em ângulos que os evidenciam, com a câmera apontando para o alto, os generais sempre estão em posição de comando. Essa composição também é feita cenograficamente com o trabalho de Rosa Ros. Os alemães têm sempre espaço para movimentação em cena e respiro centre si. Os prisioneiros sempre enclausurados, aglutinados e apertados por uma câmera que delimita ao espaço num mobiliário pesado e apertado. A paleta de cores puxa para um realismo naturalista e evidencia o contraste da escuridão das celas e barracões e suntuosos locais oficiais. Tudo é pensado na estética do opressor x oprimido.

A música de Diego Narravo segue a mesma construção da fotografia e possui frases antagônicas. Os alemães são antecipados ou conduzidos por épicas marcações contundentes com fortes graves, como a simulação de batidas de pés de um enorme exército rumo à guerra. Os prisioneiros são acompanhados por um lirismo que se aproxima da lamentação, com cordas agudas que soam lentamente e choram com cada um. O homem enforcado, o sujeito com o tiro na cabeça, o homem queimado na fornalha, o grupo asfixiado no gás, os escravos mortos na pedreira à base da exaustão. Qualquer uma das 35 formas de execução de Mauthausen-Gusen. Os instrumentos não tocam, eles choram junto.

O Fotógrafo de Mauthausen é uma justa homenagem à Francesc Boix, um homem que se arriscou e conseguiu provar ao mundo mais um pouco da crueldade do Nazismo pelas fotos de Paul Ricken e por suas próprias fotos.