O Banqueiro da Resistência é um drama biográfico que retrata um feito corajoso de dois irmãos holandeses durante a ocupação nazista na Holanda durante a Segunda Guerra Mundial. Walraven van Hall (Barry Atsma), também conhecido como Wally, e seu irmão Gijs van Hall (Jacob Derwig), foram banqueiros e responsáveis por criar e administrar um banco clandestino que levantou, distribuiu e financiou fundos às vítimas de Adolf Hitler.

Wally, líder por trás da concepção do banco da resistência, estudou para se tornar oficial da marinha mercante, mas foi rejeitado por seu problema de miopia. Mudou-se para Nova York em 1929. Seu irmão, que futuramente tornar-se-ia prefeito de Amsterdã (capital holandesa), já trabalhava com bancos e o ajudou a conseguiu emprego em Wall Street. Apresentado ao setor bancário, retornou à Holanda e construiu, ainda jovem, carreira como banqueiro e corretor da bolsa de valores.

Após a invasão alemã, em maio de 1940, foi estabelecido um fundo para ajudar familiares de marinheiros mercantes (presos no exterior quando a guerra eclodiu). Wally, com garantias do governo holandês em Londres, contribuiu com o financiamento. Então, os alemães tomaram medidas antijudaicas e impuseram o trabalho forçado, o que embarreirou tais medidas. A partir daí tem-se início o plano de Wally para combater o nazismo com a sua maior arma: o dinheiro. Planos, contabilidade, estratégias, codinomes, “vaquinhas” e falsificações.

De uma simples ideia de reunir banqueiros contra a invasão alemã a recriar notas promissórias e títulos bancários perfeitos, os irmãos Van Hall conseguiram arrecadar um somatório que hoje se aproxima e meio bilhão de euros, suficientes para sustentar famílias, judeus foragidos, marinheiros, e até para apoiar greves em setores como ferrovias para atrasar o funcionamento do sistema nazista.

Talvez o diretor Joram Lürsen tenha se entusiasmado com os feitos do grupo e pesou a mão em alguns momentos. Graças à sua boa condução, atuações sólidas e montagem funcional, não desconfigurou o drama bem construído ao longo das mais de duas horas de filme, mas passou perto de perder robustez. Tudo em prol de uma linguagem nem tão inovadora assim, mas que foge do conservadorismo. Tal escolha fica evidenciada em cenas onde etapas da falsificação são destrinchadas.

Bem como o funcionamento do banco clandestino, o roteiro do filme precisou de várias mãos para ser elaborado. Ao todo, seis roteiristas fizeram parte do processo: Marieke van der Pol, Thomas van der Ree e Winchester McFly. No caso, este último trata-se de uma “writer’s room”, ou seja, um grupo de roteiristas que se une e trabalha em conjunto, adotando um único nome para todos. São eles: Matthijs Bockting, Michael Leendertse, Joost Reijmers, Pieter van der Berg.

A estrutura do drama holandês subdivide-se em três núcleos distintos. Familiar, grupo de banqueiros e alemães nazistas. Gijs é o único elemento presente em dois núcleos. Irmão do protagonista e principal parceiro do plano, numa posição de bastidores. Partilhando interesse desde a infância, como o barco a velas, e com as famílias bem próximas e unidas, a principal tarefa de ambos os lados é manter o foco no plano, não importa o que aconteça.

No primeiro núcleo, a família de Wally é o foco de atenção do diretor. Tilly van Hall, esposa (Fockeline Ouwerkerk), Aad van Hall (Thiemen Pelster) e Attie van Hall (Liz Vergeer) seu casal de filhos, têm uma relação próxima. Cada bônus tem um ônus e, a cada fase implementada, uma distância a mais, até a convivência se tornar impossível. O pai que passeia com os filhos, que escala árvores e que põe pra dormir, o marido que dança sem música e abraça por longo tempo. Milhares de outras pessoas demandam da atenção deste sujeito. O “egoísmo” singelo das crianças de sentir a falta do pai, o heroísmo da esposa em se pôr em segundo plano. Toda a concepção do plano, explicada de um modo tão confuso, poderia ter sido colocada em segundo plano, para evidenciar uma família tão machucada com escolhas tão difíceis.

O segundo núcleo é, mesmo que indiretamente, afetado pela montagem do filme. Gijs é uma espécie de narrador, pois todo o processo é revelado por ele numa mesa anos depois por futuros banqueiros, já no período da derrota nazista. A formação do grupo se dá através de contatos e reuniões; estratégias e medidas do grupo, que não são contadas logo em sequência, são um tanto quanto confusas e com jargões bancários. Todo o processo de formação da equipe e de funcionamento do projeto fica interessante quando Wally e seus parceiros falsificam as notas promissórias com equipamentos próprios ou a partir do momento que o bando de banqueiros e seus comparsas agem como uma gangue que desafia as autoridades locais em golpes que requerem bastante sincronia e pessoas infiltradas em vários locais.

O terceiro e último núcleo é representado majoritariamente por um figurão, o presidente do Banco Nacional Holandês, Meinoud Rost van Tonningen (Pierre Bokma). Um sujeito que contribuiu ativamente com o nazismo durante o período foi retratado de modo quase caricato, como um grande sarcasmo da produção, que propositalmente tripudia e, de certa forma, é como se categorizasse toda a inteligência de Hitler e seus homens a um indivíduo que foi feito de bobo por um grupo de jovens idealistas, criativos e surpreendentemente ousados. Ao contrário de outras filmografias, Joram dá pouco espaço para o mundo nazista e foca seu olhar para os holandeses. Quando o dá, é devastador.

Há muitos personagens. Isso é um fato. É possível perder-se entre nomes. Os próprios núcleos poderiam ter sido mais enxutos. A família van Hall deveria ter mais tempo em tela e ser totalmente focalizada em Wally, que é o rosto se entrega de corpo e alma a operação. Cada vez mais personagens são inseridos no contexto do golpe do banco clandestino durante o segundo ato. Outros secundários surgem entre subtramas que se entrelaçam à principal e acabam por ter participação decisiva no destino de todos. Talvez o roteiro pudesse ter mais liberdade e simplificar mais algumas coisas.

O destaque da parte técnica e estética do filme é para o Desenho de Produção de Harry Ammerlaan, responsável por comandar o setor artístico. Paulius Dascioras (Direção de Arte) e Jantien Wijker (Cenografia). O volume de obras com o tema nazista é grande e as referências também, mas o capricho encontrado para arquitetar o espaço interno do Banco Nacional, os cenários aterrorizantes das ruas destruídas da guerra com corpos executados e os esconderijos do banco clandestino são o ponto alto da produção.

A fotografia de Merlijn Snitker reforça esta estética numa linguagem que mescla o ouro e o luto. A libertação e a morte. Há a guerra visual do dourado com o preto. O brilho com o opaco. O claro com o escuro. Seja nas tomadas internas ou externas, o olhar do espectador sempre terá um conflito visual a resolver de duas cores que se chocam ou se rivalizam em cena. Não necessariamente ambas vindas da luz. Elas podem ser refletidas pelo próprio cenário, pelo figurino, ser a soma de tudo. O que importa é a atmosfera obtida, o ouro e o preto (ou marrom) são dominantes.

O Banqueiro da Resistência é visualmente bonito, mas tem um roteiro – ideia reforçada pela própria direção – um tanto quanto exagerado nas artimanhas. É o famoso caso do menos é mais. De todo modo, bela produção holandesa.