O filme dirigido e protagonizado por Antônio Pitanga em 1978 se passa no litoral do Rio de Janeiro, em Atafona e tem em seu núcleo central de personagens o malandro Antônio, ex-pescador e atualmente frentista que nutre uma paixão doentia por Terezinha (Sibele Rúbia), uma vendedora de caranguejos que quer ir embora para a cidade grande e Clarisse (Norma Benguell), uma madame endinheirada da cidade, cuja chegada abala o coração do pobre homem.

Fotografia do filme cedida por Banco de Conteúdos Culturais.

Numa estética que se aproxima do expressionismo alemão, o filme é repleto de enquadramentos e cenas escuras com focos de luz duros e sombras contornando os personagens. Embora a premissa seja cotidiana e passível de acontecer num local isolado, o diretor fez questão de dar uma atmosfera fantástica as cenas, principalmente as noturnas. Esta escolha se justifica pelos rumos que a narrativa toma. O que começa com um sujeito bom de papo e mulherengo tentando se dar bem com as duas encaminha-se para uma história com um quê de suspense em meio a cenas de comédia. É comum se perguntar o porquê de certas decisões de roteiro e refletir de para onde a história está nos levando. A fotografia tem uma importância evidente nisso, pois ela restringe o olhar do espectador aos personagens e nos retira a atenção do que está em volta e como por trás daquele romance proibido estão mulheres com segredos e planos ardilosos.

O filme brinca com o significado de “macho”. A virilidade por trás do personagem que não deixa o olhar escapar de um rabo de saia é posta à prova desde a sua introdução. Numa cena comum e sem pretensões de um grupo jogando 21, um jogo de cartas, o tema musical do filme, “Amante Amado”, música de Jorge Ben Jor e interpretada por Caetano Veloso, que se repete em vários momentos, deixa claro a submissão daquele homem em relação às mulheres e, porque não, é o resumo do que se passa em tela: “…quero ser mandado, adorado, acariciado, machucado e amado por você. E depois pode me mandar embora…”. É exatamente isso que vemos: Antônio é o típico malandro de bar que, por mais que tente resistir, sempre se entrega a uma paixão. E vai além: faz de tudo por essa mulher.

O relacionamento de Antônio com Terezinha é complexo. Ele quer casar. Ela quer se mudar para a cidade grande. Ele quer sexo. Ela quer sexo apenas após o casamento por causa de sua religião. É nessa constante que, entre declarações e rejeições, chega Clarisse, que fisga o coração de Antônio, que não deixa de amar Terezinha. A armadilha preparada pelo roteiro está no fato de que é preciso fazer uma escolha e qualquer que seja ela haverá uma consequência. Em questão de relacionamento, o com Clarisse se apresenta mais sólido: ela gosta do lugar, não liga para que ele seja frentista pois tem condições financeiras, faz sexo e admite que teria filhos. Terezinha, o tempo todo, insiste em sair de lá e que já está farta de esperar a conclusão do curso de mecânico que Antônio faz por correspondência. O “x” da questão é: Clarisse está há uma semana no local, é viúva e carrega mensagens depressivas num gravador portátil consigo.

É neste jogo sexual e num tortuoso labirinto moral que os personagens se encontram e em meio a decisões e reviravoltas, a mensagem que fica é da incapacidade do homem em lidar com sua libido e sua fraqueza em relação à mulher, que o domina quando o jogo sai do erotismo e entra na esfera mental.