A crítica para Missão no Mar Vermelho não está no seu quesito técnico. É um filme, no geral, sem defeitos e agradável. O conceito por trás de sua escrita que é problemático. O audiovisual, obviamente, é constituído de uma latente veia artística, mas é um negócio. Esta é a isca que muitos cineastas mordem. Gideon Raff, diretor e roteirista, é israelense. Chris Evans, que vive o espião militar da Mossad (órgão militar israelense!) Ari Levinson, é um dos símbolos do novo cinema hollywoodiano e há pouco tempo empunhava o escudo do Capitão América, um dos principais vingadores e um ícone do patriotismo americano.

Questões históricas, políticas e sócio-econômicas pesam na concepção do roteiro e na visão de heroísmo em cima de israelenses e americanos, estes sequer tiveram participação ativa em grande parte da operação que originou o filme. No início dos anos 80, Daniel Limor, uruguaio naturalizado israelense, lidera uma ousada estratégia para salvar as vidas de milhares de judeus etíopes que fugiam de fome para o Sudão, país muçulmano e autoritário. De 1981 à 1985, a Mossad gerenciou o “Arous Holiday Village“, um resort praiano composto por 15 bangalôs e uma pequena estrutura de cozinha e sala de jantar. Para isso, o órgão militar utilizou uma empresa suíça de fachada e alugou o resort por 320 mil dólares. Lá, fizeram reforma e transformaram o hotel simultaneamente numa experiência de turismo e numa central de inteligência.

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(Texto em inglês, basta pedir para o Google traduzir automaticamente.).

Em Missão no Mar Vermelho, Ari Levinson (Chris Evans) funciona como uma espécie de “Capitão África“, quase uma releitura do super-herói que interpreta no UCM. Além de invejáveis características físicas típicas de um herói narcisista, é um indivíduo quase sem falhas de caráter. O único “senão” do personagem fica visível no tratamento com seu parceiro de equipe: o médico Sammy Navon (Alessandro Nivola). Há uma certa relação de opressor x oprimido em que Ari desdenha das ideias de seu amigo e segue seus próprios planos sem se preocupar com possíveis riscos.

O protagonismo de Levinson é tamanho que Kabede Bimro (Michael Kenneth Williams) – nome verdadeiro do etíope que liderou as fugas – , adorado pela comunidade etíope, judaica e africana por atos de heroísmo e bravura ao liderar seu povo durante a operação é relegado a um papel secundário sob a sombra do abandono e fraqueza do povo africano. Ou seja, a dualidade entre Levinson e Bimro vai além da cor ou da nacionalidade e ganha parâmetros sociais e políticos de assistencialismo e, porque não, de dependência. Os israelenses são tratados como messias, verdadeiros salvadores da pátria. É possível contestar que o foco narrativo de Raff seja exclusivamente a operação. Se assim fosse, não seria necessário compor o cenário caótico de negros contra negros movido pelo posicionamento religioso. O que a narrativa prega é que, num microcosmo onde pessoas de mesma cor se aniquilam por crenças, um grupo de homens brancos é a única esperança.

Onde está o heroísmo dos milhares de homens, mulheres, crianças e velhos que arriscaram-se por caminhadas em regiões desérticas e dominadas por grupos de extermínio? Os judeus etíopes caminhavam mais de 1.000 quilômetros até os campos de refugiados no Sudão. Lá, eram transportados de caminhão até as águas internacionais em pequenos barcos e navios, para então chegarem em Israel. Muitos morreram durante a caminhada, outros foram mortos nos campos. Fome, sede, execuções sumárias, doenças. Inúmeros motivos tiravam a vida de centenas de inocentes em constante perigo. Todo o esforço destas pessoas, ao olhar do diretor e roteirista Gideon Raff, foi em vão. Existiria operação se os africanos não cruzassem dois países a pé? Fica a reflexão.

Um outro questionamento da escolha do diretor. Porque a “Operação Irmãos” foi tão ignorada até este filme? Apesar de ousada e inteligente, o número de judeus etíopes salvos foi pequeno quando comparada à “Operação Moisés“, que em menos de três meses transportou 7.000 pessoas para Israel via Bruxelas. Mais uma prova que o heroísmo está na jornada de sofrimento das pessoas que nutriam seu sonho de chegarem a Sião. A atitude de Israel é louvável, os soldados merecem reconhecimento, bem como a operação, mas renegar o lado mais importante da história é um erro decisivo.

Missão no Mar Vermelho se salva por apresentar um bom conjunto técnico. Roberto Schaefer (Direção de Fotografia) transita do aspecto quente e solar alaranjado ao escuro e frio, tal qual o clima desértico da região. Mychael Danna acerta bem o compasso e sabe quando acelerar o ritmo junto com a Montagem de Tim Squyres. Apesar de um pouco exagerada comparada à versão original, Jeff Mann comanda uma hábil equipe de arte e a produção conta com um crível cenário paradisíaco, num bom Desenho de Produção na estrutura do “Red Sea Diving Resort“.

Marcado por atuações genéricas, o lado africano se realça mais. Michael Kenneth Williams, de todo o elenco, é o mais convincente e que se doa mais para o papel, entregando boas cenas dramáticas e merecia muito mais protagonismo. O caricato Coronel Madibbo (Thabo Bopape), uma espécie de Ministro do Turismo do Sudão e o vilão Coronel Abdel Ahmed (Chris Chalk), mesmo que marcado por clichês e cenas estranhíssimas (o que foi o Coronel Abdel tocando guitarra de dois braços num momento intimista?) são boas adições à trama.

Boa parte das cenas realmente fazem parte do contexto histórico, outras foram adaptadas para fins dramáticos. No fim, isto é pouco relevante. A missão do diretor não foi bem executada. Ao optar em omitir do longa-metragem seu contexto histórico mais significativo, caracterizou-se como mais uma das narrativas de ótimo potencial que não foram bem aproveitadas.