A última execução na Turquia ocorreu em 1984. O militante dev-yol (principal organização clandestina de extrema-esquerda do país) Hidir Aslan foi enforcado em 25 de outubro daquele ano. Foi condenado à morte em julho de 1981 por um tribunal militar de Esmirno por “tentativa de subverter a ordem constitucional com violência”. Aslan foi o 27º opositor condenado à morte depois da chegada dos militares ao poder em setembro de 1980.

Em 2013, o sul-coreano Lee Hwan-Kyung dirigiu a comédia dramática Um presente na Cela 7, que serve de base para a formatação de Milagre na Cela 7, do diretor turco Mehmet Ada. O grande trunfo da adaptação é, ao contrário de outros exemplos exemplos, não copiar. Mesmo com narrativas similares, os roteiristas Özge Efendioglu e Kubilay Tat foram decisivos na originalidade contextual da trama. Por mais que não seja um material novo, a produção turca marca seu território pela sensibilidade, pelo intimismo com os personagens e o mais importante, por inserir o triste episódio na vida de Memo (Aras Bulut Iynemli) dentro de sua própria realidade histórica.

Milagre na Cela 7 é mais do que um filme que faz chorar. Passa longe de ser aquele dramalhão abestalhado onde o texto aprofunda nos clichês para arrancar lágrimas de um público suscetível ao choro fácil. Não há apelação! O que Mehmet Ada faz é captar as mais singelas emoções do ser humano, das mais negativas e viscerais às mais singelas e escondidas no inconsciente de um adulto com mente de seis anos de idade. É compor relações verdadeiras e não necessariamente apenas as afetuosas. Há o desdém, o ódio, o nojo. Mas, há muita reflexão, que anda perdida em nosso mundo. Pois é, um cineasta turco faz isso por lindas duas horas. Exceto por um cidadão irredutível, os demais perpassam por valores e questões humanas das mais variadas. Sentimentos, trocas, conversas. Um simples olhar ou um gesto sem pensar. São tantas as qualidades em diálogos, textos, subtextos, é uma ode à relação humana.

Mehmet Koyuncu, que é conhecido e se autonomeia “Memo”, é um adulto com deficiência mental. Sua mentalidade equivale à de sua filha Ova (Nisa Sofiya Aksongur), uma menina esperta e inteligente, que o defende nas ruas da cidade e sempre que pode trabalha com ele para o sustento da família. Os dois vivem com Fatma (Celile Toyon Uysal) ou, como Memo e Ova a chamam, “Vovó”. Uma senhorinha de idade avançada e responsável tanto por seu filho, quanto por sua neta. Memo é viúvo, pois, como ele mesmo diz, a mãe de Ova “virou um anjo e foi para o céu”. O trio se demonstra sempre inseparável e um sempre é a base do outro. Memo tem um interesse em particular por passarinhos (até pombos, que ele não distingue) e suas melhores amigas são ovelhas que ele cria e nomeia com nome de humanos. Desde o início, é evidente a relação de pai e filha e sempre que pode, desfruta de momentos de brincadeiras com sua filha Ova como observar o céu e formatos de rochas. Uma delas, inclusive, parece um “gigante de um olho só”.

Durante um evento militar, Memo conduz suas ovelhas pelo pasto mas é distraído por uma criança e, devido sua mente infantil, corre para brincar com ela. A menina faz uma complicada travessia por rochas próximas ao mar, se desequilibra e cai. Há uma testemunha, um soldado desertor, Kaçak Asker (Cankat Aydos), que observa de longe. Memo tenta salvá-la. Ao chegar na beira da praia com a menina ensanguentada em seus braços, o pai da menina, o General Yarbay (Yurdar Okur) está certo de seu crime e, mesmo a contragosto, pois sua vontade era matá-lo ali mesmo, concorda em prendê-lo.

A jornada de Memo na prisão evoca uma série de pensamentos, discussão e reflexões. A cela 7 pode e deve ser compreendida como microcosmo que representa toda uma sociedade; preconceitos, ofensas, agressões, julgamentos. Com uma diferença: a mais pura bondade no coração de um homem que transforma a todos ao seu redor. O líder da cela é Askorozlu (Ilker Aksum), um ex-capitão militar. Lá dentro, ele dá as ordens e consegue algumas regalias com contatos externos e certa relação com antigos companheiros. Ao saber que Memo estava preso por matar uma criança, o comportamento dos presos é o pior possível, o que o leva a quase morte. Entra o paradoxo, o que o salva é quem o quer matar. A obsessão do militar em enforcar o homem que julga ser culpado o considera um alvo protegido e o prisioneiro que o machucasse seria morto: é a partir daí que todos têm a exata noção que uma grande injustiça está sendo cometida e numa surreal reviravolta, ninguém poupa esforço para ajudá-lo.

A câmera de Mehmet Ada está lá para apreciar cada um dos belos diálogos construídos. De homens que sabem dos pecados que cometeram, que não se julgam inocentes, e que encontram na pureza de Memo um reflexo da redenção. O mais importante: embora essenciais, não é um olhar unilateral. A riqueza de diálogos e diversidade está em reconhecer a humanidade em militares que trabalham para o mesmo sistema mas que reconhecem o mal que estão fazendo. O justo diretor Nail (Sarp Akkaya), o outrora truculento policial Faruk (Deniz Celiloglu). Há homens da lei que agem na lei e que buscam sua redenção no mesmo messias. Um “Alá” traumatizado, machucado, ferido, mas com um sorriso que nunca sai do rosto por um único motivo: o abraço em sua filha Ova.

A obra de arte de Mehmet Ada encontra espaço na abstração e no onírico com o velho Yusuf (Mesut Akusta). Numa aproximação com Ova, entendemos que o estranho silêncio do prisioneiro amargurado que olha uma parede manchada é pela lembrança que o desenho lhe traz. Lembrança da sua filha. Para a menina, seu pai está numa instituição de pessoas doentes assim como ele e, queira ou não, estão. Doentes por dentro, remoídos, tristes, numa agonia eterna incessante.

É de se ressaltar a excelente atuação de Aras Bulut Iynemli, num papel dificílimo que trabalha sensibilidade, controle corporal, expressão e emotividade. A construção do personagem também ressalta a ótima capacidade da dupla entre ele e Mehmet Ada em entregar um protagonista convincente. Se o filme é, de fato, emocionante, deve-se muito a ele. Soma-se à química e presença de espírito de Nisa Sofiya Akongur, sua filha Ova. Definitivamente, por mais que todo o elenco esteja coeso e uníssono, a dupla se destaca e rouba as cenas constantemente numa aula de atuação.

Finalizando, de nada adianta uma boa tela sem uma boa imagem e é mais um acerto da produção turca. Caprichada, imageticamente potente. Uma mescla da arenosa turquia com a metalizada prisão. O amarelado do mundo exterior com o acinzentado da clausura. Os contrastes estéticos, sempre num jogo entre culpado e inocente. A iluminação escura e pesada com a recém-rechegada de Memo e momentos de brutalidade e violência, a suavidade das paletas com o brilho do sol que vem da janela entre abraços, choro e pedidos de perdão. Redenção! A imagem fala por si só e conversa com o texto. Um belo trabalho de Torben Forsberg, dinamarquês que capturou a aura turca abrilhantada por cenários ricos e detalhados e figurinos fidedignos num belíssimo recorte de Hakan Yarkin.

Milagre na Cela 7, senhoras e senhores, conseguiu ser ainda mais bonito e emocionante que o filme que o originou. Para os que se emocionam com mais facilidade: preparem-se!