Maria e João – O Conto das Bruxas é mais um caso de um trailer que bota o hype lá em cima e frustra quando comparado ao resultado final. De ritmo acelerado e imagens de causar arrepios, a sensação é de bons sustos numa atmosfera tensa e obscura. Não é exatamente isso que acontece.

O diretor Oz Perkins investe numa linguagem que se aproxima de A Bruxa, de Robert Eggers (O Farol), marcada por simbologias na tentativa de cunhar um conceito mais surrealista por trás do conto dos Irmãos Grimm. A adaptação sombria tem alguns acertos, com destaque para a belíssima fotografia de Galo Olivares com um tratamento plástico invejável, conferindo a cada frame um aspecto de obra de arte clássica em suas tonalidades de madeira escura, com realces para algumas poucas cores, como a díade azul / vermelho, o que pode ser compreendido como uma metáfora aos irmãos Maria e João. Assim como a fotografia, a Direção de Arte de Jeremy Reed é muito bem acertada com cenários que brincam com os sentimentos: ao mesmo tempo que enclausuram e ocultam seus próprios espaços são um convite ao deleite com a presença de cores vibrantes e formas curvilíneas completamente contrastantes a conjectura geométrica e pesada.

Sophia Lillis (Maria) é a força motriz do filme e segura a atenção do espectador que tem tudo para desviar seus olhares e atenção pelo roteiro insosso e, ao final da trama, que passa a sensação de inacabado. O jovem Sammy Leakey (João) poderia ser melhor aproveitado. Carismático e com um simpático sorriso, fica completamente impotente por quase metade do filme. Não a toa o título inverte a ordem dos nomes dos personagens, pois o protagonismo é todo de Maria, que explora seu embate com Holda (Alice Krige), a bruxa, numa espécie de jogo mental e manipulação. Aliás, é possível extrair deste contexto uma interpretação de burguesia x operários, onde a classe dominante oferece o mínimo para obter o máximo.

Os pontos fracos estão justamente na direção de Oz Perkins que peca na originalidade e assume riscos de redesenhar um estilo já pavimentado e no roteiro pobre e repleto de clichês de Rob Hayes, incapaz de convencer o espectador de que está diante de conto de terror. Soma-se a isso uma saturação de técnicas utilizadas para assustar. A confusão se estabelece quando há uma estranha mescla de atmosfera conceitual com poucas e más sucedidas tentativas de susto. É possível, literalmente, acompanhar todo o filme sem sofrer nenhum tipo de surpresa ou susto, de tão óbvia é a montagem. Por mais que fique claro ao longo dos 90 minutos de filme que a premissa não é de assustar, mas de compor um cenário “fantasmagórico“, o trailer empolga justamente por colocar uma pulga atrás da orelha para um arrepiante thriller adolescente.

A própria relação dos irmãos com Holda é ineficiente. Exceto por João, que se deixa influenciar mentalmente ao não resistir aos encantos de doces e comida farta, é inegável que Maria parece estar sempre no controle de tudo. Não há como sentir medo ou empatia a ponto de torcer pela personagem ou por alguma fraqueza. Mesmo a fome é posta em segundo plano através das artimanhas da narrativa que forcene pistas para Maria de que Holda esconde um passado caótico e que nada do que está sendo ofertado é apenas de bom grado e que há um preço a ser pago por trás. Não há um labirinto, um mistério ou um segredo a ser descoberto. O próprio roteiro fornece as ferramentas para personagens e público, anulando o poder da fórmula do suspense. O resultado final não é nada além de uma passagem sem emoção ou atração sendo contada por uma garota que amadurece da maneira mais natural possível num universo de bruxas e criaturas sem nenhum tipo de efeito trágico por trás.

Esta não é a primeira e provavelmente não será a última adaptação as obras dos Irmãos Grimm, mas definitivamente não figura entre as mais memoráveis. Há bons momentos estéticos, mas no geral apresenta falhas estruturais de roteiro e linguagem que contaminam a percepção final do longa-metragem.

“Maria e João – O Conto das Bruxas” estreia no dia 20 de fevereiro de 2020 nos cinemas.

Filme visto em cabine de imprensa no dia 12 de fevereiro a convite da Imagem Filmes e Sinny Assessoria.