Temáticas mórbidas costumam chamar a atenção do público. Top 3 na Netflix Brasil, Lost Girls – Os Crimes de Long Island, embora seja inspirado no L.I.S.K (Long Island Serial Killer), trágico episódio da história americana, retrata superficialmente o caso que até hoje não tem solução. De 1996 à 2010 (há alegações de 2013), estipula-se que um total de 10 e 16 mulheres, todas tidas como prostitutas, foram assassinadas nos condados de Suffolk e Nassau, em Gilgo Beach, Oak Beach e Jones Beach State Park.

A diretora Liz Garbus, renomada documentarista de longa carreira, foca a atenção da narrativa em Mari Gilbert (Amy Ryan), mãe de Shannan Gilbert (Sarah Wisser), uma das mulheres desaparecidas na região. Solteira, com dupla jornada de trabalho e duas filhas à criar, o retrato é de uma mãe desesperada em busca de informações sobre sua filha. O núcleo familiar é formado por Sherre Gilbert (Thomasin McKenzie) e Sarra Gilbert (Oona Laurence), irmã mais nova que convive com quadros de transtornos mentais. O ano é 2010. Shannan liga para a mãe e combina uma visita para um jantar. A família se reúne. Ela não aparece. Começa a jornada em busca do paradeiro de sua filha, que às 4:51 da manhã liga para a emergência policial pedindo ajuda, pois considera-se em perigo.

Num filme que tem como premissa retratar um crime, ou uma série deles, que é o caso deste, as ramificações podem tomar várias direções. Quem são as vítimas, quais são os suspeitos, como eram os métodos de execução, a profundidade de uma possível corrupção da força policial, enfim. Há várias escolhas determinantes para se construir um contexto que, no fim das contas, abordará o mesmo assunto. Ao optar por, sempre num olhar intimista, reconstruir o passo a passo de Mari Gilbert e suas filhas mais novas na busca incessante, Garbus limita a abrangência e a possibilidade criativa da obra, mas reforce sua potência de discurso.

Deixando em segundo plano a ficionalização dos fatos e adicionando camadas sociais, como no comportamento machista de Dean Bostick (Dean Winters) e na maneira vexatória que a mídia retrata as vítimas, Garbus faz refletir sobre como a sociedade absorve sob um viés preconceituoso este crime em particular e gera uma forte provocação. São mulheres. Mais que isso, são prostitutas, putas, piranhas, vadias… e daí como elas morreram ou quem as matou?

Com uma linguagem que pretende se aproximar das meninas de hoje em dia, toda a alegoria fílmica protagoniza a mulher. O homem é vilão, nada mais que isso. Cada vez mais clichê nos dias de hoje, o sexo masculino é minimamente relevante na pele de Joe Scalise (Kevin Corrigan), que está longe de ser um exemplo de ser humano. Nada mais justo. Numa sociedade onde mulheres sempre foram estereotipadas, porque não se fazer o contrário também? Talvez a figura central para destilar seu discurso tenha sido subaproveitada. A apatia de Richard Dormer (Gabriel Byrne) não funciona, pois o personagem não gera nenhum tipo de reação do espectador. Toda a afronta da protagonista com ele se deve ao seu conflito interno e nunca diretamente por suas ações. Mesmo que seja um retrato mais próximo da realidade (o que é difícil crer!), a liberdade poética permite um ajuste aqui e ali. Este era o caso.

A linguagem é frágil. A base não parece sólida o suficiente. Como cineasta, as vezes é preciso tomar decisões complexas ou impopulares. Não que este fosse o caso, mas, ou assume-se como um filme de ficção com estética e condução documental ou parte-se para a elaboração de sequências coreografadas e com manipulação da narrativa. A falta de coesão faz com que o espectro transite, as vezes, perdido entre as duas características. Quando Mari Gilbert aprofunda sua investigação a um nível arriscado, há elementos bem característicos de um thriller. Em compensação, as reuniões e vigílias de irmãs e mães das outras mulheres assassinadas têm uma roupagem completamente diferente.

São tais escolhas da diretora que interferem diretamente no roteiro de Michael Werwie. O destino de Shannan e os segredos de Mari Gilbert com suas filhas tornam-se muito mais relevantes que todos os demais crimes, relegando-os à aspectos secundários de uma jovem assassinada. Embora haja uma tentativa no texto, não há força suficiente que cause uma aproximação entre público e as demais vítimas.

O visual ligeiramente granulado e de paleta de cores mais fria e pálida conferem ao filme um aspecto naturalista que, quando mesclado aos enquadramentos tremidos da câmera na mão, resultam num estilo mais próximo de um filme caseiro. Igor Martinovic, Diretor de Fotografia reconhecido por seu trabalho na série The House of Cards e com um número considerável de documentários no currículo, desenha com Liz Garbus o tom acinzentado de pedaço sem brilho da história. A estética empregada pelo filme segue o mesmo padrão. Quase não há espaço para destaques de cor, seja em cenário ou figurino. A neutralidade imagética deve conduzir à intensidade mais importante da narrativa: a esperança nos olhos de Mari Gilbert.

Lost Girls – Os Crimes de Long Island é um filme naturalmente triste e que carrega consigo uma importante mensagem de valorização e discurso feminino, embora não explore de maneira tão profunda o assunto, onde talvez pudesse ir ainda mais além no seu posicionamento final.