A cinebiografia de Frances Ethel Gumm, conhecida pelo grande público como Judy Garland, é um filme potente que revela o lado mais obscuro do empresariado de Hollywood na pele de Louis B. Mayer e ilustra o quão caro pode ser o preço da fama e do sucesso. Por vezes, impagável. Judy foi uma espécie de Jekyl & Hyde, onde sua melhor faceta encontrava-se no palco, mesmo que no final de sua carreira o lado “monstro” tenha ganho relevância evidenciando-se em comportamentos grotescos. E o pior, este era incontrolável.

Em sua primeira cena num plano sequência em meio à um cenário que remete ao antológico Mágico de Oz o filme deixa claro o quão sem importância era a jovem Frances, exceto pela sua voz inconfundível e único atributo que a diferenciava das demais, que a invejavam por isso. De acordo com a fala de “LB”, como era chamado por Judy, sua beleza, estatura e peso estavam aquém de várias meninas do país e do mundo afora e que era preciso destacar-se em algo mais que unicamente o talento. Para o estúdio, a imagem importa. E assim dá-se início a uma jornada de transformação por completo: para se criar o ídolo, era preciso deixar hábitos, desejos e vida de lado. Com os anos, o preço por este compromisso extremo foi cobrado.

A cinebiografia tem o roteiro assinado por Tom Edge, com experiências prévias em televisão, e é uma adaptação da peça de teatro “End of the Rainbow”, com texto de Peter Quilter. Este fato pode contribuir na justificativa uma escolha do diretor Rupert Goold em investir numa linguagem que insere nas telas de cinema o outro lado de uma pessoa famosa: os bastidores, a coxia, o por trás das cortinas. A escolha da atriz, surpreendente, é o ponto alto de um filme que não tem lá uma narrativa original. Inteligente, Goold utiliza-se de uma linguagem que valoriza cada frame em tela de Renée Zellweger, impactante o início ao fim e candidatíssima ao Oscar por sua interpretação.

Como esperado, há um mecanismo da narrativa em sufocar Judy numa completa sensação de sofrimento de modo exaustivo. Não há respiro para algum tipo de alívio no último ano de sua vida, exceto nos que podem ser considerados seus únicos amigos, excluindo seus filhos, o casal homossexual Dan (Andy Nyman) e Stan (Daniel Cerqueira). Esse amálgama de sofrimento e solidão é construído desde os momentos de sua infância/adolescência, seja na relação com LB Mayer, pautada inclusive sob assédio sexual, ou nos momentos com o ídolo teen Mickey Rooney, que podia, por exemplo, comer os hambúrgueres e pizzas entre sessões de foto, enquanto a ela lhe era proibido, já que as pílulas de emagrecimento faziam parte de seu cardápio. Na fase adulta, mais problemas: casamentos malsucedidos, problemas financeiros, depressão, drogas e tentativas de suicídio. Pensando na proposta do filme, há uma desconstrução do estrelato. O que ficam são as marcas na vida de uma pessoa que nunca foi genuinamente feliz.

O contraponto entre a felicidade e a solidão é ilustrado de maneira brilhante numa cena de encerramento apoteótica, melhor que grande parte do mercado do show business. Não pela música ou por sua execução com a participação da banda comandada por Burt Rhodes (Royce Pierreson), um parceiro musical conquistado em período decadente, tampouco pela potência vocal da cantora ou pela incredulidade de Rosalyn Wilder (Jessie Buckley), sua assistente-pessoal em seu período mais complexo, mas pela frase dita por Judy em meios aos merecidos aplausos: “Não me esqueçam, prometam que não.”. – Esta frase é a simbologia perfeita para representar uma pessoa que, por si só, é incompleta. Sua outra metade, a que dedicou a sua vida, sempre foi o público. Nem mesmo seu último marido, Mickey Deans (Finn Wittrock), com quem dividiu bons momentos num período bastante conturbado era capaz de preencher o vazio que apenas o palco completava.

É relevante notar que aspectos teatrais são realçados, talvez de modo a complementar a leitura advinda de uma peça teatral. Adereços e figurinos extravagantes, e a montagem de cenários, por exemplo. A produção acerta ao valorizar e mesclar com câmeras fluidas e close-ups que aproximam a plateia do ator. Há, de fato, uma aproximação do vislumbre cênico que é impossível numa encenação teatral. A habilidade está em não ser uma peça filmada, longe disso. É a cinematografia que encontra no espectro teatral a possibilidade da comunhão de fatores para obter um denominador comum fílmico e o resultado em tela é indiscutível.

O principal ponto de ebulição do filme, levando-se em conta sua estrutura, é a discussão necessária e a possibilidade de combate à desenfreada cultura do entretenimento e seus podres. A figura de Judy, de carreira brilhante, com certeza não é a única a deixar-se levar pelo sonho de menina de ser reconhecida mundialmente. De fato, o longa serve de alerta para àqueles que buscam desde os quinze minutinhos de fama até ficar marcado para a história. Há de se ter, antes de mais nada, controle sobre as próprias ações e não se deixar cair na tentação, seja da remuneração, do reconhecimento ou ambos. Por este viés é, definitivamente, uma obra significante e que deve ser levada à sério. Caso o intuito seja ser apenas uma obra cinematográfica que retrata uma estrela, então temos um filme bom com uma atuação espetacular que o segura em vários momentos.

Filme visto em cabine de imprensa no dia 14 de janeiro a convite da Espaço Z Mkt.