Brad Anderson, diretor experiente e reconhecido principalmente pelo filme O Operário, de 2004, protagonizado por Christian Bale, bebe da fórmula utilizada há quase vinte anos atrás. Em Fratura, Sam Worthington vive Ray Monroe, um ex-piloto de corridas com problema de alcoolismo. A premissa é simples: num posto de gasolina numa autoestrada, Peri Monroe (Luci Capri), sua filha de 06 anos, sofre um acidente e quebra o braço. Preocupados, ele e sua mulher, Joanne Monroe (Lily Rabe), buscam ajuda no hospital mais próximo.

Desde a entrada da família no hospital, pistas (sinais, como o próprio filme descreve numa revista!) são dadas exaustivamente. Seja em forma de objetos, sons ou personagens. É impossível não compreender o protagonista como um indivíduo com a mente afetada. Quando não diretamente, o roteiro trabalha com subtextos para indicar ao público a sanidade duvidosa de Ray, como, por exemplo, no comportamento frio de Joanne, sempre com falas inexpressivas e falta de emotividade.

No maior acerto do filme (e maior erro, justificarei depois), o roteiro de Alan B. McElroy nos insere num contexto onde é possível acreditar que Ray Monroe esteja falando a verdade a todo o momento e que o background do hospital é extremamente bizarro. A atmosfera de alucinação e delírio se inicia quando Joanne e Peri são encaminhadas para um exame de tomografia e não são liberadas mais do hospital.

Certo de que sua família está sendo vítima de algum plano maquiavélico, ele tenta provar sua hipótese para a polícia enquanto os fatos levam a crer que tudo não passa de uma mentira de uma mente de memórias confusas. A batalha mental travada entre Ray e toda a equipe do hospital, desde as recepcionistas até médicos e cirurgiões, é bem construída. De um lado, a versão que alega que toda a arquitetura do hospital é uma fachada que esconde um serviço ilegal de sequestro e transplante de órgãos e bolsas de sangue. Do outro, a de que Ray Monroe assassinou sua esposa e sua filha.

A direção acelerada com enquadramentos fechados constrói bem o espectro da loucura. O ritmo bem marcado do filme garante à trama principal a pressa e a corrida contra o tempo, necessária para tornar crível a busca de Ray por sua família dentro do hospital. A fotografia de Björn Charpentier segue uma mescla de tons verdes e azuis, que, quando pensamos na psicologia das cores, são cores que podem ser associadas à padrões oníricos (sonhos) e fantasmas / demônios. Mais um indício do embaralho mental do protagonista.

A Direção de Arte de Lauren Crasco é um condutor natural da narrativa. Seja como ferramenta de preenchimento de espaço e pontos de fuga para as lentes da câmera ou como elos entre pontos de virada do roteiro, os objetos de cena e cenários são essenciais para toda a metamorfose da narrativa, que induz nossos olhares a interpretar situações de diferentes maneiras constantemente. Há um sentido lógico bem óbvio, mas muito das dubiedades surgem pelo bom trabalho artístico do filme.

A desilusão por trás do novo trabalho de Brad Anderson está justamente na escolha do desfecho, que aponta para o caminho mais óbvio possível, sempre indicado pelas alegorias imagéticas, sonoras e comportamentais o tempo todo. Toda a construção da narrativa perde a força quando plot-twists são desperdiçados em prol de uma conclusão “mais do mesmo” já presente na filmografia do diretor.