Fundados em 1823 por Stephen F. Austin e constituídos em 1835, funcionavam como uma agência de aplicação da lei com jurisdição em todo o estado. Ao longo dos anos, investigaram crimes diversos, dentre eles assassinatos, corrupção política, motins e agiram como detetives protegendo os governadores texanos, bem como localizando fugitivos.

Em 1933, a governadora Ma’ Ferguson (Kathy Bates) os extinguiu por considerá-los de difícil obediência. Então, a força policial passou a ser composta unicamente por xerifes, delegados e a própria guarda do governo. Um ano depois, ela voltaria atrás de sua decisão.

Para que Frank Hamer (Kevin Costner) e Maney Gault (Woody Harrelson) pudessem ser lembrados neste filme, uma dupla de criminosos amplamente midiática e conhecida precisou existir: Bonnie Parker (Emily Brobst) & Clyde Barrow (Edward Bossert). Aqui, coadjuvantes relegados à menções e ligeiras aparições em segundo plano. Bem diferente dos jornais, fotografias e livros de história.

A verdade é que, mesmo como suporte à narrativa, os bandidos são imprescindíveis para os detetives. Bonnie & Clyde marcaram seus nomes na história. Hamer e Gault necessitam da coexistência com a dupla. Justifica-se esta observação pelo simples fato que, tendo-se em conta a proposta do roteiro, tanto faz o passado de cada um deles, exceto quando este serve na construção da personalidade do detetive amargurado que persegue a dupla sem sucesso.

E é exatamente aí que está a grandiosidade de John Lee Hancock e John Fusco. O filme não aborda ícones da história ou forças “sui generis”. Pelo contrário. São dois homens comuns na casa de seus cinquenta anos. Um deles com problemas de alcoolismo, o outro sentindo os efeitos da idade, sem mira, reflexo e preparo físico de outrora. Como esses caras podem frear o ímpeto do Robin Hood americano e sua inseparável e sanguinária companheira? A resposta está em uma única palavra… bom, talvez duas: experiência e conhecimento.

Não, o filme não é de ação, tampouco tem tiro pra lá e pra cá. Ele é longo, são mais de duas horas. Há momentos de pura reflexão e, por algumas vezes, tudo que o diretor quer é que você apenas ouça os monólogos de Hamer e Gault e compreenda o peso de tirar uma vida. Ou mais de cinquenta, numa única noite. Mesmo que seja para fazer o bem.

Não estamos diante de heróis ou homens armados que disparam sem dó. É notável o olhar amargurado e o corpo que sente o peso de uma vida inteira tomando decisões de poupar ou não a vida de uma pessoa numa fração de segundos para não perder a própria.

Desacreditados pelos homens da lei e sobrecarregados por insucessos, resta aos homens confiar em suas habilidades e ter a resiliência necessária, mesmo que por vezes o cansaço leve a desistência, que leve a depressão, que leve ao vício. O papel do coadjuvante nunca foi tão importante, pois é da existência da dupla e do elevado número de vítimas, somado à crescente popularidade que os dois mantém-se firmes na exaustiva jornada.

O brilhantismo do texto está em criar um antagonismo invisível e intangível. Não é a governadora, nem os agentes federais, tampouco Bonnie & Clyde; eles são seus próprios rivais. A descrença em suas virtudes, os traumas e feridas abertas, o cansaço da idade… o processo cognitivo é providencial para que nada se ponha a perder. É preciso confiarem em si mesmos, apesar de todos os pesares.

Um filme cinza, nublado, meio azulado. Tampouco a iluminação das paletas e a captação das lentes de John Schwartzman são felizes ou brilhantes. A estética beira à neutralidade com profusão da escuridão, do luto. Paradoxalmente, é na femme fatale que o brilho da cor quente preenche a tela; a excitação do tiro à queima-roupa pela jovem de vinte e poucos anos.

Costner e Harrelson são, definitivamente, o ponto mais alto do filme e, junto à Hancock, trabalham todas as cenas num ritmo de angústia e com a melancolia necessária de dois homens que não veem nos corpos desfalecidos dos criminosos um troféu a ser exibido, mas mais duas vidas que tiveram que ceifar. A força da dupla é tão grande que, mesmo com vasto elenco, demais personagens não se aproximam em força narrativa. A discrepância é muito elevada e, mesmo que o roteiro tente, se todo o elenco fosse substituído (exceto os protagonistas!) não faria a menor diferença.

Um ponto relevante e, porque não, uma crítica tecida à sociedade e não só a americana, diga-se de passagem, é o culto ao banditismo. Bonnie & Clyde davam autógrafo, ditavam a moda das cidades, tinham as fotos nos jornais de grande circulação, escreviam cartas para o presidente. Mais de 20 mil pessoas foram ao velório de Bonnie. Mais de 15 mil ao de Clyde.

Quase ninguém, até hoje, sabia quem eram Frank Hamer e Maney Gault. Os homens que os mataram em 11 de março de 1934.