Duas Coroas, do diretor Michal Kondrat, é um docudrama que transita entre duas linguagens cinematográficas: ficção e documentário e que se aprofunda na vida de São Maximiliano Kolbe, um padre polonês canonizado por João Paulo II após seu ato de martírio no campo de concentração de Aushwitz. Adam Woronowicz interpreta Padre Kolbe numa atuação que indica a pureza, o desapego, a criatividade e a resiliência de um santo de nossos tempos.

Mais do que a escolha de pôr o padre num pedestal na qualidade de intocável, o diretor Michal Kondrat constrói a imagem de uma mente criativa, inovadora e à frente de seu tempo, sempre a serviço de sua religião e sua fé, em busca de um bem maior que acredita ser possível de alcançar. A narrativa tem começo ainda na sua infância, na delicadeza de uma criança de fé e com aptidão para a resolução de enigmas. O nome do documentário é justificado num evento ocorrido nesta época. No altar de sua família, Kolbe tem a visão de Nossa Senhora, que lhe mostra duas coroas, uma branca e uma vermelha. A primeira representa a prática da pureza, a outra é o reconhecimento de um mártir, um caminho para a santificação. O roteiro do longa é pautado por testemunhos de pessoas que conheceram Padre Kolbe e por pesquisadores e estudiosos de sua biografia, muitos ligados à religião e ao mundo franciscano. Três países servem de locação para as filmagens: Itália, Japão e Polônia, onde viveu e deixou o seu legado.

Há tanta história a ser contada e a pesquisa é tão aprofundada e repleta de registros históricos que alguns recursos são utilizados em comunhão para tentar transmiti-la de modo mais dinâmico, evitando o ritmo arrastado de produções de temática religiosa. Além, claro, da dramatização dos eventos, o que às vezes pode parecer um tanto redundante, há a quebra da quarta parede pelo próprio documentarista, que inicia ou complementa algum tipo de informação. O pecado, ironicamente falando, de Duas Coroas, é que o roteiro de Joanna Ficińska aborda um volume exagerado de informações, por vezes fugindo do eixo da temática do personagem principal e caindo em discursos religiosos, onde sabemos que nem todos são como Padre Kolbe.

Esta escolha não anula, em definitivo, a maneira que o documentário é conduzido e como os principais fatos da vida de Raimundo Kolbe, seu nome de batismo, são abordados. A criação da Mílicia da Imaculada para combater o comportamento anti-católico em Roma provocado pelos ideais maçônicos, a utilização da comunicação social para a propagação da palavra católica através da criação da revista O Cavaleiros da Imaculada, a fundação do convento de Niepokalanów, o trabalho como missionário no Japão, em Nagasaki, onde criou a revista Cavaleiro Japonês e, claro, sua morte no campo de concentração de Aushwitz, ao trocar de lugar com um condenado à morte por fome, após ser preso pela Gestapo, justamente pelo sucesso estrondoso de sua revista, que alcançou uma tiragem mensal de um milhão de exemplares.

O filme pode ser entendido como uma linha do tempo separada por tópicos, onde cada um deles é explicado e abordado com profundidade e a mescla de documentário e ficção é limítrofe ao conflito narrativo entre ambos. O resultado final é de uma insegurança em abordar a história de Padre Kolbe como um filme ficcional e perder a robusta credibilidade em relação à verdade dos fatos, bem como fincar as suas raízes e com isso estar à margem da menor aceitação de um documentário por maior parte do público.

Um quesito técnico a se destacar é a utilização do efeito Parallax, onde personagens e fundos (ou cenários) de uma fotografia são “descolados”, simulando um aspecto 3D. A técnica parece funcionar numa estética ainda mais deslumbrante nas cores preto e branco das fotografias antigas e essa imersão é realçada por um efeito de névoa sobreposto que interage muito bem com cada um dos registros da época. Toda a reconstrução, tanto em figurinos, quanto cenários, são de acordo com os relatos e a atuação de Adam Woronowicz desenha uma caricatura que parece não ter sido canonizada por João Paulo II, mas ter nascido como um santo, um ser próximo a Deus, onde a força de sua fé e seu amor à Maria pareciam não ter fim.

O filme estreou no dia 28 de novembro nos cinemas brasileiros.

Trailer Oficial liberado pela A2 Filmes

Filme assistido em pré-estreia à convite da A2 Filmes no dia 25/11/20019.