Antes de pensar sob qualquer aspecto técnico de cinematografia, é preciso compreender o universo fílmico no qual o diretor Quentin Dupieux inseriu o seu filme. Deerskin – A Jaqueta de Couro de Cervo é, antes de mais nada, um filme sobre loucura e obsessão, direto e sem firulas. Não a toa, o filme tem apenas 1 hora e 17 minutos de duração. Partindo da análise da construção aristotélica da narrativa, o roteiro, do próprio diretor, abandona o primeiro ato. Não há sequer uma explicação de quem é o protagonista Georges (Jean Dujardin), toda a informação que temos é que é casado, mas põe tudo a perder em prol de um desejo: ter a jaqueta de couro de cervo, 100% de couro.

Partindo desta lógica da bizarrice, o filme é certeiro. Em nenhum momento há a preocupação de se explicar ou de fazer o mínimo de sentido verossímil, mesmo sendo parte integrante de um mundo real onde pessoas têm suas loucuras, prazeres e objetos de desejo. É possível filosofar e atribuir à visão do diretor uma crítica ao consumo desenfreado promovido pelo capitalismo extremo, mas é provável que este não seja o ponto de partida de Le Daim (nome original em francês). Num contexto que beira a esquizofrenia, Georges compra sua jaqueta por um valor bem considerável e recebe uma filmadora digital como cortesia do vendedor, desencadeando, a partir daí, uma paródia à metalinguagem. Para alcançar seu objetivo, o protagonista se pauta em ações de antagonismo com surtos psicóticos de um serial-killer a fim de alcançar seu objetivo bizarro: ser o dono da única jaqueta de couro de cervo do mundo. Uma vez com seu objetivo traçado, temos o confronto de um Jekyl & Hyde, onde o monstro vence o homem e a cada etapa, como um quebra-cabeças, o vilão se sobrepõe ao mocinho.

Todo este devaneio tem lugar numa pequena cidade francesa. Georges, que está sem um tostão após gastar suas economias na jaqueta, tem sua conta no banco bloqueada por sua esposa e passa a agir como um picareta, fingindo ser um cineasta. Aliás, é nesta ilusão de si próprio que vê a oportunidade perfeita para pôr o seu plano em prática. Ele conta com a ajuda de Denise (Adèle Haenel), uma garçonete de um bar local que tem como hobbie editar filmes em ordens cronológicas diferentes. Interessada com o projeto, resolve contribuir com o falso projeto de Georges e chega a financiá-lo, sem que este desconfie das suas segundas intenções.

Como se não bastasse toda a aura que insere o abstracionismo neste contexto cru e realista, uma figura que observa as ações de Georges, um garoto sem nome (Pierre Gommé), brinca com a funcionalidade do “plantar e colher” (quando uma ação de um personagem tem um resultado num momento futuro da trama) de um roteiro fílmico, bem como serve de alerta para atitudes impulsivas: o clímax pode ter um desfecho melancólico para aqueles que se deixam perder para si mesmos. A ironia por trás de todo esse contexto de insanidade é que o próprio filme faz questão de se criticar e refletir, se colocando como uma caricatura de pessoas solitárias e obsessivas que fazem de tudo pelo topo da cadeia alimentar, mesmo que seja retroalimentar-se de si mesmo.

É neste tom de deboche total da estupidez humana que Quentin Dupieux choca, diverte a audiência e deixa uma reflexão: é você que está no controle das suas ações?

O filme tem data prevista para estreia no dia 02 de janeiro de 2020 no cinemas brasileiros.

Filme visto em cabine de imprensa no dia 09 de dezembro de 2019 a convite da Califórnia Filmes.