O ano ainda está começando, mas já temos um candidato a um dos melhores filmes de 2020. Dark Waters – O Preço da Verdade, dirigido por Todd Haynes, resgata um dos capítulos mais inacreditáveis que homens engravatados são capazes de escrever na história da humanidade por um falso progresso pautado no lucro e monopólio, ignorando todas as consequências inevitáveis e mortais para atingir seus objetivos. Sim, há uma clara mensagem que evoca a militância ambiental, mas este não é o único recado.

No dia primeiro de outubro de 2016, o jornal americano The New York Times estampa em sua capa a matéria intitulada como “The Lawyer Who Became DuPont’s Worst Nighmare”, do jornalista Nathaniel Rich, que esmiúça um caso que perdurou por longos 20 anos: a luta do advogado Rob Bilott contra a gigante empresarial do ramo químico DuPont. É deste artigo que se origina o roteiro de Dark Waters, escrito brilhantemente por Mario Correa e Matthew Michael Carnahan.

Rob Billot (Mark Ruffalo), até o ano de 1996, advoga como defensor de megacorporações até ser abordado pelo fazendeiro Wilbur Tennant (Bill Camp), que alega que sua fazenda e seu gado está sendo envenenado de alguma maneira e que tem inúmeras provas em fitas cassetes gravadas. Inicialmente reticente, Rob demora até entrar definitivamente no caso mas, numa visita a fazenda de Wilbur, percebe que fatos incomuns estão acontecendo, inclusive no comportamento agressivo de animais. Dá-se início a uma investigação exaustiva e batalhas judiciais em todas as esferas, num processo de duas décadas, a fim de comprovar a culpa da DuPont na morte de milhares de pessoas da cidade, desde funcionários, ex-funcionários e consumidores de seus produtos. No cenário caótico e misterioso, um único elo: o C8 | PFOA (Ácido Perfluorooctanoico), um ácido sintético utilizado na produção em massa do Teflon, que durante muitas décadas esteve presente (e ainda está!) em utensílios domésticos.

Mark Ruffalo tem uma atuação destacada, que varia desde pequenas nuances de fala e expressões, até uma construção física facial e corporal, com andar característico e com uma carga dramática que se acentua ao longo dos anos sob altos índices de stress. Inicialmente fácil, a interpretação exige cada vez mais controle do ator, que envelhece e se afunda cada vez mais na complicadíssima batalha contra uma das maiores e mais respeitadas empresas americanas, responsável por dezenas de milhares de empregos da região local. A esposa de Rob, Sarah Barlage Billot, por uma emotiva e potente Anne Hathaway, é a responsável por evidenciar o afastamento afetivo no relacionamento que os vinte anos causaram no casal, mesmo ainda cúmplices e unidos. Provavelmente, aqui pode ser observado o único ponto negativo, sem desculpas, do filme. A caracterização da atriz parece não ter seguido o ritmo de todo o elenco e, ao contrário dos demais, sua personagem parece rejuvenescer ao longo das décadas, e não envelhecer. Um detalhe que quase passa despercebido pela força narrativa, mas que não deixa de ser quase um erro de continuidade imagética.

A narrativa do filme acerta em criar camadas de poder para a DuPont que, de acordo com Rob Billot, é um órgão que está acima do sistema. Como combater um inimigo de tal importância? O advogado, por vezes, age como um lobo solitário contra uma alcateia de hienas. Não basta vencer sua rival. É necessário enfrentar o contragosto de seus superiores, os conflitos familiares, o incômodo e desespero de parte da sociedade que busca por soluções e a rejeição de outra parte que apoia a empresa e sua contribuição com a ciência e com a sociedade, principalmente donas de casa consumidoras de suas panelas e frigideiras antiaderentes. O advogado vê-se, quase sempre, sozinho numa épica jornada de resiliência e determinação.

Dentro do maior acerto do filme, o roteiro, há espaço para um maneirismo de escrita inconveniente na construção da persona de Phil Donnelly (Victor Garber), principal nome da DuPont. Apesar da boa atuação do ator que ficou conhecido do grande público como o arquiteto do Titanic (1997) e nela extrair o mínimo de empatia com o público, fica evidente que o objetivo final do texto é expor toda a frieza e insensibilidade do personagem que, no fim das contas, se interessa apenas pelo quanto de dinheiro irá fazer ao fim do ano com os seus produtos. Subtraindo-se o talento do ator, resta apenas um personagem odioso e sem altos e baixos em seu caráter.

Outra questão discutível é a velha brincadeira com estereótipos. No núcleo da Taft Stettinus & Hollister LLP, empresa de advocacia onde Rob Billot é o sócio mais recente, há espaço para personagens secundários figurões desnecessários que justificam sua presença apenas como um trampolim para a posição íntegra de Billot. É neste contexto que outros dois personagens ganham em relevância e facilitam o trabalho do advogado: Tom Terp (Tim Robbins), presidente da empresa, com direito a discursos com lições de moral e Kim Burke (Bruce Cromer), um dos parceiros que colaboram com sua luta contra a megacorporação e o apoia mesmo nos momentos de isolamento. Harry Dietzler (Bill Pullman) é outro que torna-se essencial na batalha judicial, numa atuação pitoresca e recheada de sarcasmo do ator.

Observações a parte, o roteiro no geral é de ótimo nível e colabora num campo que merece destaque. Mesmo se tratando de uma ficção, é visível o trabalho de pesquisa e há uma escolha assertiva por parte da produção em inserir em sua trama inúmeros itens de historicidade confirmada. São fotos, vídeos, textos, recortes e a mais precisa delas, embora com um evidente grau expositivo e de choque com a audiência, a presença de Bucky Bailey (no filme, William Bailey), que nasceu com deformidade facial no nariz, boca e olhos. A principal suspeita: a contaminação que sua mãe sofreu por C8 durante os anos de trabalho na DuPont.

O Design de Produção (Direção de Arte) do filme é bem relevante, com cenários que progressivamente se degradam e acompanham o ritmo da narrativa. Nas várias etapas da linha do tempo do filme, não só ambientes externos como internos passam por metamorfoses e, além de apontar para o espectador a que pé está o contexto da história, funciona como uma ferramente de continuidade e condutor do olhar de quem assiste. Paisagens cada vez mais cinzas e sem vida, cidades com mais lixo, escritório com pilhas e pilhas de caixas de evidências. É um trabalho detalhado e muito próximo dos cenários da vida real, o que confere uma credibilidade artística e visual bastante positiva.

Por fim, a exímia condução da dupla Todd Haynes e seu Diretor de Fotografia, Edward Lachman, responsáveis por contrastes de enquadramentos perturbadores que mesclam o enclausuramento de um advogado chafurdado num trabalho interminável a planos de isolamento de um homem sem esperança em meio ao caos. A linguagem trabalha com o paradoxo o busca a reflexão constante. Do que adianta ter a liberdade se esta é cerceada em prol de interesses sórdidos, criando paisagens inabitáveis? É preciso quebrar as amarras e lutar contra os que estão acima do bem e do mal.

Para coroar este ótimo produto cinematográfico, um tema atual e necessário, principalmente num país como o nosso. Neste exato momento, há pouco mais de um mês, nossa cidade, Rio de Janeiro, enfrenta uma crise hídrica de contaminação com geosmina e detergente e isto é o que temos notícia. A trágica coincidência é tamanha que engravatados da CEDAE se reúnem para satirizar o próprio consumidor e o seu principal gestor é flagrado numa banheira aos risos. Ou seja, mesmo os “erros” e exageros de roteiro se fazem próximos a nossa realidade. Um forte soco no estômago!

Filme visto em cabine de imprensa no dia 07 de fevereiro de 2020 a convite da Paris Filmes e Espaço Z Mkt.

Clique na imagem para ler a matéria do “New York Times”, que serviu de base para o filme.