Com uma breve passagem nos cinemas americanos no ano de 2017, Sleepless, ou Crimes na Madrugada é uma adaptação do filme francês Nuit Blanche (Pura Adrenalina). Quando o assunto é adaptação, em geral, a tendência é o filme original ser mais relevante por uma série de razões. Há algumas exceções, onde a releitura supera a criação, mas este não é o caso, mesmo porque é difícil crer que em tão pouco tempo após o seu lançamento um filme seja adaptado. Nuit Blanche, dirigido por Frederic Jardin, data de 2011, apenas seis anos antes de Crimes na Madrugada.

Ao contrário de muitas refilmagens ou adaptações ao longo da história, não há nada que justifique a produção. Costumes de um povo, tecnologias e conhecimentos adquiridos, novos hábitos educacionais, nada. O que sobra? A americanização de uma boa narrativa policial. O cinema americano é de excelência, doa a quem doer, mas não estamos diante de um desses casos. Crimes na Madrugada é uma ação que engata a quinta marcha entre tiros, pancadaria e explosões e conta uma história bem próxima à vista em Pura Adrenalina com algumas maquinações de roteiro.

Dirigido por Baran bo Odar, conhecido principalmente por seu trabalho na série Dark, o longa segue o policial Vincent Downs (Jamie Foxx), conectado e com informações do submundo do crime. Neste dia, ele intercepta um carro com seu parceiro Sean Cass (T.I Harris) e rouba uma bolsa com drogas. Bryant (Michelle Monaghan), detetive da corregedoria, o considera suspeito de tráfico junto à Rubino (Dermot Mulroney), dono de uma linha de hotéis e um dos sócios de Novak (Scoot McNairy), traficante, herdeiro da família na linha sucessória e psicopata.

A narrativa é simples, mas carregada de subtramas que resolvem-se simultaneamente e estão interligadas. O sumiço dos 25 kg da cocaína de Novak, o sequestro de Thomas (Octavius J. Johnson), filho de Vincent, a investigação de Bryant e Dennison (David Harbour), o teor machista na corporação, são muitos assuntos que precisam de resolução. Isto explica o ritmo constantemente acelerado e a falta de solidez de cada personagem. Não há um resgate do passado de cada um, um momento reflexivo ou de entendimento para saborearmos um pouco mais de suas características. Se os personagens funcionam minimamente é pela ótima qualidade do elenco, a se destacar os esforços de Jamie Foxx e Michelle Monaghan.

Embora tenha uma história fragmentada e que dilui-se facilmente, o filme reserva bons momentos de ação e cenas com lutas bem coreografadas, mesmo que o diretor apele para enquadramentos rápidos e cortes dinâmicos. A linguagem dificulta um pouco a apreciação do combate, mas mantém o frenesi lá no alto. De fato, neste aspecto, é um produto que se sustenta e faz valer o seu entretenimento. Mesmo com um orçamento modesto, há sequências impactantes compostas por efeitos práticos e visuais muito bem trabalhados. Um adendo, porém: a apelação para uma ou outra situações nada críveis passam muito perto de comprometer até mesmo seu maior ponto positivo.

A composição técnica é bem elaborada. A tríade de edição, trilha sonora e fotografia é bem sincronizada e encorpada. A paleta do experiente Mihai Malaimare Jr. (Jojo Rabbit) trabalha as várias tonalidades do azul e a dualidade do vermelho e capta as paisagens noturnas num espectro soturno e cyberpunk típico do caos urbano de uma metrópole movimentada americana. É um visual que se aproxima muito do videogame e traduz Vincent como um personagem que precisa passar de fases até o seu encontro final com o chefão, Novak. Em complementação, a música praticamente ininterrupta composta por Michael Kamm martela cada corte e transição da linha do tempo de Robert Rzesacz, conferindo o ritmo alucinante da pressa, componente constante do filme.

Há uma tentativa de transmutar a obra como um thriller, principalmente no mistério que ronda tanto o protagonista quanto o detetive Dennison, mas evidências e pistas são facilmente deixadas para o espectador e os plot-twists são frágeis, alguns antecipados pelo próprio espectador de modo natural pelas ações de cada personagem muito antes da solução propriamente dita. No fim das contas, Crimes na Madrugada é um filme que não justifica a sua existência por si só, mas que funciona minimamente pelo elenco, principalmente por Jamie Foxx, e por uma ou outra cenas de ação.