Ed Helms, que ficou marcado pela trilogia “Se beber não case” onde deu vida ao personagem “Stu” – Sim, aquele mesmo que terminou com uma tatuagem do Mike Tyson próxima ao olho – protagoniza uma comédia com muita verborragia, palavrões para dar e vender e uma trama que se divide em alguns momentos engraçados e outros frenéticos que culminam numa ação explosiva de orçamento modesto. Ao contrário do exemplo anterior, não estamos falando de um grupo de adultos nada convencionais. Mas de um policial e de um estudante do ensino fundamental.

Ele interpreta James Coffee, um desajeitado e nada temido policial da cidade de Detroit, típico estereótipo negativo do sujeito honesto e quase fracassado. O sobrenome não é à toa. Coffee, em português, é café. A ironia, porém, é que grande parte da energia do filme está no parceiro nada convencional do homem da lei: Kareem (Terrence Little Gardenhigh). Um moleque sem nenhuma educação que nutre o sonho de ser rapper e planeja secretamente entregar Coffee à criminosos locais. O motivo? Ele está namorando sua mãe, a sensual Vanessa Manning (Taraji P. Henson).

Kareem fala pelos cotovelos, não tem nenhuma dose de bom senso nem respeito e tem algumas teses peculiares. Para o garoto, quanto mais “gay” for a fala de uma ameaça ou violência a alguém, mais efetiva ela é. Existe um termo cada dia mais comum conhecido como “local de fala“. Por mais que estejamos diante de um filme de humor, devemos ter em mente que trata-se de uma produção majoritariamente branca. Aos negros cabem os papeis de traficantes, adolescentes pobres e periféricos ou da mãe sensual, como quase sempre fora no passado. Por mais que o roteiro quebre alguns desses conceitos em sua etapa final, é exatamente isso que vemos ao longo de uma hora e meia. É preciso cuidado redobrado e análise fria para entender que até mesmo o humor tem certos limites.

Ao contrário da resenha anterior (A Grande Luta – clique para ler), o discurso não é uma barreira à produção. Ed Helms, que também assina como produtor do filme, não se intimida perante sociedade ou crítica e dá carta branca ao roteiro de Shane Mack, que faz seu trabalho de estreia no mundo dos longas-metragens. Uma decisão arriscada, pois embora demonstre coragem em ser textualmente agressivo, ignora todo e qualquer tipo de filtro ou padrão comportamental de uma sociedade em constante mutação.

A ideia por trás de Coffee & Kareem é bastante genérica e explorada. Desde os filmes mudos e cinema preto e branco (O Gordo e O Magro, por exemplo), não é novidade a concepção de uma dupla com duas caricaturas antagônicas, onde um é o extremo oposto do outro. É nesta fórmula batida que aposta a produção, com uma pequena diferença: sai um adulto, entra uma criança, ou adolescente, como preferir.

Kareem renega toda e qualquer ligação com sua faixa etária. O roteiro construído à base de estereótipos atravessa um caminho espinhoso e corre um risco desnecessário ao ser criativo de maneira equivocada. Caracterizado por seus papeis também estereotipados (como o roteiro!) e com uma veia cômica apuradíssima, o baixinho Kevin Hart (Um Espião e Meio, com “The Rock”) resolveria todo e qualquer problema de diálogo para Shane Mack. Bastaria uma simples mudança de parentesco, com Vanessa Manning sendo sua irmã, e toda a estrutura funcionaria perfeitamente.

A potência humorística do roteiro não condiz com a veia cômica do elenco, principalmente de Ed Helms, que se esforça para levar algumas risadas ao público. Todas elas saem de sua descoordenação motora e zero tática ao enfrentar os criminosos. São poucos, mas bons e divertidos momentos que quebram todo o padrão do filme, seguindo a base do humor corporal. Totalmente descritivo e com incontáveis diálogos, a grande maioria sem graça alguma, nenhum dos atores consegue fazer rir sem precisar forçar ao limite da situação.

A verborragia está presente em todos os núcleos. Na delegacia, com Detetive Watts (Betty Gilpin) e Capitão Hill (David Alan Grier) e o próprio John Coffee; no esconderijo dos traficantes, de onde surge o trio com as melhores falas, Orlando Johnson (RonReaco Lee), Rodney (Andrew Bachelor) e Dee (William ‘BigSleeps’ Stewart) e na relação familiar. O texto propõe uma dinâmica onde esses núcleos se conflitam e, mais do que qualquer pensamento crítico ou relação de causa-efeito com escolhas morais da produção, o espectador tenta encontrar as piadas entre as falas. A “licença poética” do humor e do audiovisual funciona como válvula que destila o veneno entre conteúdos de cunho preconceituoso, o que tem ficado para trás nas produções cotidianas.

As insanidades cometidas por Kareem, como pegar em armas e dirigir um veículo em fuga não passam despercebidas. Não estamos num jogo de videogame ou num desenho animado, onde há um distanciamento da realidade. Um filme é compreendido como um recorte da sociedade, por mais que haja a liberdade da loucura do humor, muitos pais conscientes se sentirão desconfortáveis ao assistir cenas como essas.

Nesta grande desarmonia, há uma trama com um leve quê de suspense que se sustenta por alguns minutos e momentos intensos de ação. Tiros, explosões e boas coreografias funcionam e divertem mais que quase todos os “momentos de comédia“, agregando ritmo a um filme que tem curta duração, mas que parece muito mais elástico, dada sua mecânica de diálogos tão intensos.

O esforço do elenco é louvável e melhora a percepção final da obra. RonReaco Lee deveria ter sido mais acionado, pois é dele que partem as melhores falas e os momentos mais próximos de um humor cotidiano e palatável. É perceptível o nível de falta de sutileza da escrita quando um traficante é, excluindo o abestalhado John Coffee, o de maior “finesse” entre todos.

O diretor Michael Dowse tem seu trabalho ofuscado, mas também carrega culpa. Junto à Brian Burgoyne (Diretor de Fotografia), os dois exaltam a imagem do jovem renegado da periferia e seu comportamento de revolta sem nenhum pretexto. Seja na entoação de sua música de cunho sexual na escola ou em humilhações à John Coffee, o enquadramento sempre posiciona o personagem de modo que fique em evidência e superioridade em relação aos demais. A figura que, ao mesmo tempo, representa uma realidade que uma grande parcela dos negros testemunha diariamente e luta para sair e carrega dentro de si conceitos como machismo, homofobia e o próprio racismo, é posto em destaque ao longo do filme.

Se há limites no humor, eu não sei, mas ele deve ser engraçado. Coffee & Kareem até foi, mas muito pouco.