Baseado no livro homônimo de 1999, Edward Norton produz, dirige e protagoniza o longa-metragem Brooklyn sem pai nem mãe. O ator sempre viu potencial cinematográfico na obra e esperou por vinte anos até realizar seu desejo de levar a estória do detetive Lionel Essrog às telonas. Embora a trama ocorra originalmente em tempos atuais (no caso, final dos anos 90), Norton optou por uma adaptação, transitando a narrativa para os anos 50, entregando um filme que flerta com o noir e com a comédia, com uma crescente dose de drama no transcorrer de suas quase 2 horas e meia de duração.

Ambientado nos Estados Unidos da “Administração Eisenhower”, conhecida como a época da “Sociedade Afluente”, o filme carrega em seu emaranhado de plot-twists (cenas que causam surpresas ou reviravoltas na narrativa), uma mensagem importante de combate ao racismo. Décadas após o crash americano, ocasionado pela queda dos valores das ações na bolsa de Nova Iorque, a New York Stock Exchange, período conhecido como “A Grande Depressão” (ou Crise de 1929), os Estados Unidos retomavam o controle econômico Pós-Segunda Guerra Mundial e, empurrado pelos sintomas da Guerra Fria contra a União Soviética, tentava estabelecer-se como potência mundial. Como resultado, a expansão em busca de estabilidade e prosperidade para a classe média e alta americana e em sua absoluta maioria, branca. É neste contexto efervescente, de lutas de direitos civis e igualdade por parte dos negros, que sofriam de discriminação racial, econômica e política, que se passa a trama detetivesca construída por Edward Norton.

Lionel Essrog (Edward Norton) é detetive numa agência de investigação capitaneada por Frank Minna (Bruce Willis) e tem como parceiros Tony Vermonte (Bobby Cannavale), Gilbert Coney (Ethan Suplee) e Danny Fantl (Dallas Roberts). Os quatro foram adotados por Frank Minna quando ainda crianças e viviam num orfanato abusivo, onde freiras os castigavam constantemente. Lionel, embora nunca mencionado diretamente durante a trama, sofre de Síndrome de Tourette e possivelmente de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). Tal condição faz com que muitas vezes seja incompreendido e tido como incapaz, mas sua memória fotográfica e poderosa é uma forte aliada no seu trabalho. Norton nos entrega um personagem que causa um certo dilema moral: é errado achar engraçado o seu jeito? Aliás, a construção por trás do protagonista é bom ponto de discussão. Inicialmente elaborado num tom cômico, mas cada etapa avançada na trama contribui para uma profundidade dramática em sua atuação. Seja por uma situação traumática ou por um prazer inédito, Essrog torna-se paulatinamente mais denso. “If…”, traduzido para português: “Se…”, exaustivamente repetido por Brooklyn (apelido dado a Lionel Essrog por Frank Minna) nos momentos mais tensos, talvez seja uma provocação à sociedade. E se não houvesse racismo, crimes, etc? Fica a reflexão.

O antagonismo fica à cargo da dupla Moses Randolph (Alec Baldwin) e William Lieberman (Josh Pais). Randolph é um empresário corrupto que manda em Nova Iorque, inclusive em seu prefeito, e que acumula cargos de importância. Por outro lado, é considerado um típico “herói americano” por suas ações empreendedores em prol desta mesma classe média branca, construindo parques, pontes e contribuindo para o mercado imobiliário americano, sem antes pensar nos subúrbios e comunidades carentes, causando um processo de gentrificação (  fenômeno que afeta uma região ou bairro pela construção de novos edifícios, valorizando a região e afetando a população de baixa renda local) . Lieberman trabalha para o governo e compactua com as ações de Randolph, sendo responsável por frear as lutas dos negros por suas moradias, esses representados principalmente por Laura Rose (Gugu Mbatha-Raw) e Gabby Horowitz (Cherry Jones), ativistas que buscam a preservação dos subúrbios e melhor qualidade de vida.

Um dos personagens secundários que rouba a cena quando aparece é Paul (William Dafoe), numa caricatura de um “joão-ninguém”, mas uma máquina de segredos e alicerce responsável por sustentar boa parte da complexa estrutura da narrativa do filme, sendo o principal colaborador de Essrog.

Assim como o período no qual ocorre, o longa-metragem tem uma narrativa caótica e labiríntica, onde por vezes o espectador não faz a menor ideia de qual mistério deve ser encontrado e essa escolha não é um necessariamente incoerente. O roteiro, também escrito por Norton, é psicodélico como a mente de seu personagem e transloucado como a realidade americana da época. Objeto passível de discussão se sua digestão é bem-feita por todos, mas fica a reflexão: um ser humano com transtorno mental é bem compreendido pela sociedade? Tanto vida, como arte, nos dão amostras que não. O caminho mais fácil é o da negação e do julgamento quanto ao diferente.

Dentro deste roteiro, há escolhas que são discutíveis. Exceto por Frank Minna (que merecia mais tempo em tela), os demais parceiros de Lionel são descartáveis e não fariam diferença num resultado final, mas o roteiro fornece ações essenciais para cada um, conjecturando uma necessidade de presença na trama, embora seus pesos para o complexo tear de subtramas sejam irrelevantes. Aliás, este talvez seja o grande pecado do filme: o excesso de personagens. Embora todos, de certa forma, sejam encadeados na trama com ações que contribuem no avanço da narrativa, essa imposição torna-se confusa e desnecessária, fazendo-nos perguntar porque aquele personagem estava ali.

O ritmo fílmico soa descompassado. Por vezes acelerado e frenético, outras, um ostracismo preenchido por diálogos e dramatizações redundantes. A impressão final é que, mesmo com 144 minutos de duração, muitas informações da narrativa foram rasas e transpassadas por outras, sem a profundidade necessária para melhor compreensão da audiência. O acúmulo de informações é tão grande ao ponto do filme ser extenso, longo e dar a sensação que poderia ser ainda maior para explicar inúmeras situações. Falta um refino na adaptação, pois estamos vendo um filme, não lendo um livro que não tem hora para acabar.

Mesmo com os questionamentos estruturais possíveis, é um filme que entrega um forte contexto social e relevante até os dias hoje: o combate ao racismo e expõe a falta de escrúpulos do homem quando se tem o poder de um gigante.

Brooklyn sem pai nem mãe estreou no dia 05 de dezembro de 2019 nos cinemas.

Filme visto em cabine de imprensa no dia 04/12/2019 à convite da Espaço Z / Warner Bros.