Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa, como antecipado pelo próprio subtítulo do nome do filme, é protagonizado e tem como elemento central e condutor da narrativa a transloucada Arlequina (Margot Robbie, fantástica!). Entre 2019 e 2020, Warner e DC parecem ter aprendido com erros e reações negativas recentes, tanto da crítica especializada quanto de fãs e corrigiram diversos erros de filmes anteriores, principalmente os de roteiro. E o fizeram de maneira exemplar, com um resultado final divertido, colorido, com referências aos quadrinhos, recheado de piadas e quebras de quarta parede (ao melhor estilo Deadpool) e com excelentes coreografias de cenas de ação. Ao contrário de muitos dos filmes do gênero, e porque não de super-heróis, a diretora Cathy Yan apostou numa câmera menos turbulenta e trêmula, inserindo planos e olhares com enquadramentos que facilitam a visualização do combate e dos movimentos de artistas e dublês resultando num olhar mais plástico das lutas.

Numa linguagem repleta de ironia e sarcasmo, muitas vezes com alusão ao próprio passado cinematográfico da DC Comics, Arlequina comanda uma revolução na estética do universo fílmico da empresa. O que outrora era escuro, soturno e visceral (Batman vs Superman, muito contestado – este que vos fala tem um apreço, embora reconheça que trata-se de um filme “confuso”), dá espaço para uma transformação repleta de brilho, saturação, referências e humor negro. Figurinos, cenários, efeitos visuais, grafismos em tela. Tudo é pensado de modo a reformular o padrão imagético até então utilizado. E o principal acerto: é crível e imersivo. Absolutamente tudo que vemos em tela é coeso. Com um baita “fan service”, a produção abraça o mundo dos quadrinhos e põe nos cinemas as principais características de Arlequina e seu psiquê, incluindo no pacote de mudanças referências do mundo dos videogames (Os jogos do Batman, da Trilogia Arkham e o recente Injustice 2, por exemplo), pese a caracterização do exército vilanesco de Máscara Negra, bem como movimentação e armamentos utilizados por Arlequina para combater seus inimigos. Queira ou não, parece que o estilo Marvel contagiou sua principal rival. E o mais importante: a DC preservou sua marca e originalidade mesmo com os rearranjos.

É inegável o fato de que estamos diante de um produto com atmosfera e significantes feministas. A começar por sua dupla criativa: a já mencionada diretora Cathy Yan e a roteirista Christina Hodson, com bons filmes no currículo como roteirista, dentre eles o do carismático transformer Bumblebee e Paixão Obsessiva. O elenco, como não poderia ser diferente, é dominado pela presença e protagonismo feminino. Arlequina (Margot Robbie), a detetive policial Renee Montoya (Rosie Perez), Caçadora, codinome de Helena Bertinelli (Mary Elizabeth Winstead), Canário Negro, como é chamada a cantora Dinah Lance (Jurnee Smollett-Bell) e Cassandra Cain (Ella Jay Basco), uma batedora de carteira e mais nova do grupo. Todas elas têm algo em comum: precisam dar a volta por cima em suas vidas. Ao lado masculino da história é reservado o papel de vilania. Roman Sionis, o Máscara Negra (Ewan McGregor) e Victor Zsasz (Chris Messina), seu braço direito, são os principais representantes. Os demais têm relevância secundária na narrativa e garantem ótimas cenas de luta como mercenários, arruaceiros ou soldados do exército mascarado de Roman.

Por mais unilateral que a proposta seja e que, por vezes, haja um ou outro discurso “lacrador” (odeio esta palavra!), não se trata de uma mensagem de confrontamento com o sexo masculino ou por alguma proposta de superioridade feminina. A questão é um pouco mais profunda. O relacionamento desgastado entre Coringa (ou “Pudinzinho”, como preferirem!) e Arlequina, que termina numa separação e gatilho de toda a narrativa do filme é uma questão meramente superficial. Estamos diante de uma personagem relegada a coadjuvante durante toda a sua vida, mesmo por vezes tendo sido o grande cérebro por trás das orquestrações de Coringa. Toda a entrega, amor e devoção são sempre descartadas com facilidade. E como se não bastasse o amor de sua vida, a própria sociedade a rejeita. A emancipação aqui vai muito além de uma mensagem do feminismo, mas de uma pessoa que quer ter o seu valor reconhecido, nem que o tenha de fazer por linhas tortas.

A narrativa é simples, mas complica-se um pouco em sua própria estrutura. Apostando numa ousada brincadeira de “vai e volta”, Arlequina interrompe o filme para voltar no tempo e explicar ao público alguma situação desconhecida para então continuar de onde havia parado, sem necessariamente repetir cenas. O complicado nesta escolha não é pelo entendimento da história, que é bem simples e direta, mas de tornar-se ligeiramente massante e até desnecessária, pois é evidente que se contada de modo linear funcionaria da mesma forma. Talvez esta escolha esteja interligada a característica travessa e narcisista da personagem. Estamos falando de sua liberdade e emancipação, porque não controlar a fluidez e direcionamento dos fatos? Faz sentido.

Tanto Margot Robbie quanto Ewan McGregor estão muito bem em seus personagens e é possível criar empatia com os dois lados, mesmo nos momentos mais insanos de Roman Sionis. A atriz parece ter bebido de alguma fonte e ter se transformado na própria vilã / anti-heroína, com voz, caracterização e trejeitos muito próximos da icônica personagem. McGregor encarna uma figura sarcástica, com caras e bocas e hábitos peculiares, que transita de momentos quase afeminados a explosões de raiva incontroláveis, tudo sem perder o olhar divertido. É impossível não soltar boas risadas com a dupla, mesmo nos momentos de conflito entre eles.

Há um tripé que merece absoluto crédito neste novo filme: a perfeita sincronia entre Trilha Sonora (Daniel Pemberton), Montagem (Jay Cassidy e Evan Schiff) e a colorida, espalhafatosa e carismática Direção de Arte (Kasra Farahani e sua equipe), com cenários que se aproximam do mundo circense, figurinos que captam a aura de cada personagem e um ótimo trabalho de caracterização com Arlequina. As músicas que embalam perseguições e lutas são fundamentais para a montagem e ambas não deixam o ritmo do filme cair. É impossível sentir-se incomodado ou tedioso com o filme. Quanto o já comentado esforço artístico, o principal acerto, dentre os vários, está numa das melhores cenas do filme, quando Arlequina e suas amigas enfrentam o enorme exército de Máscara Negra num parque de diversões.

Mais do que um filme de ou para mulheres, é um produto que encontra na criminalidade e na potência de ações contestáveis, fundamentos para se alcançar inúmeros objetivos, sejam eles de redenção, vingança ou respeito. É neste viés que surge a característica de um grupo, onde todas se unem em prol de uma tarefa e sua conclusão pode significar o início de uma nova jornada. A DC ousou e re-significou, na persona de Arlequina, uma ousada fórmula de privilegiar ideais polêmicos em contextos hediondos, o que justifica ponto de vista e comportamento de uma pessoa marcada com tantas experiências negativas. Foi preciso combater fogo com fogo para apagar o incêndio. Definitivamente, um ótimo filme.

Filme assistido em cabine de imprensa no dia 05 de fevereiro a convite da Espaço Z Mkt e Warner.