Higinio (Antonio de la Torre) representa o fenômeno mais extremo das “toupeiras”: pessoas que viveram ocultas em sótãos, paredes falsas ou buracos desde a Guerra Civil Espanhola (1936) até março de 1969, quando um diploma punha fim à Lei de Responsabilidades Políticas. Desde a vitória na guerra, os “Nacionales” estabeleceram um estado autoritário de partido único sob a liderança incontestável de Franco. Sobreviventes da Guerra Civil e políticos contrários ao regime eram aprisionados e, possivelmente, executados.

Fugir não é opção. A cidade é vigiada, o entorno é sitiado. A força militar franquista extermina os desavisados sem piedade e ser pego num ato de desobediência é inafiançável. Não há negociação. Se ficar o bicho pega, se correr… bem, o bicho não come: atira. Sem dó! O sangue jorra pelos ares ou forma uma poça no chão, depende da região que pegam as balas. Higinio, como uma corajosa presa que preza por seu habitat e sua família, tem total noção que para sobreviver só há um caminho: esconder-se.

Rosa (Belén Cuesta), por muitos anos, é a única esperança de vida de Higinio, enclausurado em sua própria casa e sem poder sair. Pior ainda, sem poder frequentar os mesmos cômodos que sua esposa. Como uma praga ou um pequeno inseto, o homem de ideais políticos mais democráticos se transforma num ser invisível sempre à espreita, mas incapaz de atacar nenhuma de suas presas, que são algozes em enormes alcateias. Pequenas frestas e buracos são seus contatos com o mundo exterior e sua esposa é, ao mesmo tempo, sua guardiã e sua vigia. O menor sinal de ruído pode ser fatal e viver nunca havia sido tão desafiador.

A trinca de diretores formada por Aitor Arregi, Jon Garaño e Jose Mari Goenaga constroem uma linguagem onde a câmera é multifacetada. Por vezes, serve para dimensionar o espectador na sensação da constante clausura de Higino, sempre cercado por quatro paredes; ocasionalmente, é o olhar do próprio protagonista com a utilização da técnica do ponto de vista; o quebra-cabeças é completado por cenas onde sua presença é de um observador invisível. O som é muito importante para a ambientação cenográfica e, porque não, de afastamento, da narrativa. Seja enquadrado e fora da ação da cena ou fora de quadro, como um observador à distância da sequência em tela, é na dinâmica que temos a real percepção de como o tempo passa por um Higino cada ano mais incapaz, mais fraco, mais desgastado e mais resiliente.

A fotografia de Javier Agirre segue o a estética estabelecida pelo olhar da direção de pessoalidade e com uma paleta escura quase que por toda sua totalidade, em tela fica bem retratada a falta da luz solar. São poucos pontos de luz amareladas da época e de pouca potência, paredes escuras construídas às pressas, obras mal acabadas. O improviso para o esconderijo secreto numa época de pavor. O principal intuito da lente e da iluminação nunca foi tornar os arredores óbvios e visíveis, pelo contrário, mas plantar a dúvida entre sombras e escuridão. Quase não há cor, nem nos poucos momentos em família fora de seu esconderijo por preciosos minutos. É tudo sempre escurecido e marcado por cantos escuros e preenchidos por pesadas cores de madeira velha. Sua liberdade é sua prisão e isto fica claro na estética precisa obtida por Agirre.

O roteiro é o ponto mais frágil da produção. Com quase duas horas e meia de duração, Luiso Berdejo e Jose Mari Goenaga (um dos diretores) não conseguem construir um prólogo para nos introduzir melhor um pouco mais sobre Higino e Rosa antes de nos enfiar goela abaixo toda a narrativa dos “toupeiras”. Há uma introdução, mas mesmo ela é localizada já no período da Guerra Civil e com todo o caos instaurado. Logo, não há um background para melhor entendimento de cada personagem. Isto é feito ao longo do processo, mas inevitavelmente torna-se demasiadamente elástico, pois a fórmula da contação, mesmo sofrendo modificações, repete-se para justificar a passagem do tempo.

Por outro lado, o “inchaço” do roteiro possibilita uma parábola comportamental e reflexiva no casal. A relação entra em fases turbulentas de altos e baixos. Brigas, medos, dúvidas, paranoias. A pior parte de entrincheirar-se por mais três décadas seguidas é não saber quando e se haverá tempo para aproveitar a vida mais uma vez e experimentar a verdadeira liberdade. Fica uma reflexão: será que o tempo para Higino passa na mesma velocidade que para uma pessoa em liberdade? O cárcere, aliado à consequência da dúvida, deve levar à uma demora absurda onde cada segundo leva uma eternidade. Logo, o filme ser “lento” não é necessariamente um erro, embora não seja agradável à todos.

Há, além de todo o fator externo e insegurança, um vilão. Gonzalo (Vicente Vergara) é um vizinho que não superou a morte de seu irmão e está convicto da participação de Higino, embora Rosa e seu marido neguem. Numa grande selva há sempre o predador a espreita de olho na vítima. Ao menor sinal de descuido, é exatamente neste momento que o bote é realizado. É esta a função de Gonzalo. Aterrorizar, com sua presença constante, a vida do casal.

Antonio de la Torre e Belén Cuesta estão impecáveis em cena e, mesmo que o trabalho de envelhecimento seja mais eficiente em Higino do que em Rosa, a química obtida pelo casal e o êxito em entregar personagens que se enclausuram um pelo outro é notório. A Trincheira Infinita poderia ser um bom filme de suspense, mas a si é conferido o gênero drama pelas nuances sensíveis e emocionais por trás de toda a ação de diálogo do casal. O que um faz atinge diretamente ao outro e ambos precisam ser cúmplices para sobreviverem, mesmo que isso desgaste o relacionamento, que é sempre posto em primeiro plano. Os interesses individuais são sempre secundários, mesmo que isso machuque a cada um, principalmente à Rosa.

Em tempos de quarentena, é bom refletir que pessoas passaram mais de 30 anos sem saírem de suas casas, enquanto algumas entram em pânico por precisarem ficar alguns meses. Que sirva de lição e que momentos como estes vividos pela Espanha não se repitam.