A Perfeição ou “The Perfection“, como está no menu da Netflix, reserva momentos escatológicos e bizarros num suspense eficiente com surpreendentes plot-twists, mesmo que sua estrutura quebre um pouco do bom ritmo obtido ao longo da trama. A dupla Allison Williams (Charlotte) e Logan Browning (Lizzie) comanda o show de horrores – no melhor dos sentidos – com uma narrativa LGBT salpicada de originalidade, mesmo sem precisar descobrir a pólvora.

Dividido em capítulos, ao melhor estilo Tarantino, embora contado de modo praticamente linear, o roteiro de Eric C. Charmelo, Richard Shepard e Nicole Snyder transmuta-se em gêneros cinematográficos concomitantes. Iniciado por um prólogo que se aproxima do terror, aos poucos o diretor Richard Shepard opta pela angústia e constante sensação labiríntica do thriller psicológico. Com sua base pavimentada, há sustentação suficiente para transitar entre o gore e até o trash, subgêneros do terror. Tudo isto sem perder a beleza imagética e a elegência, pré-requisitos para uma trama caótica sobre duas musicistas talentosas.

O filme apresenta Charlotte como uma antiga prodígio do conservatório de Anton (Steven Weber) e Paloma (Alaina Huffman), que precisou abandonar o local para cuidar de sua mãe em péssimas condições de saúde. Já Lizzie é a mais nova atração musical aos cuidados da dupla. O local também tem como professores os engravatados Geoffrey (Graeme Duffy) e Theis (Mark Kandborg). Após anos afastada, Charlotte viaja para a China, onde Lizzie se apresenta sob a batuta de seus tutores e curiosos locais. A partir daí, as duas iniciam uma relação conturbada e uma série de eventos surpreendentes e reviravoltas ocorrem.

Paul Haslinger, compositor austríaco de 57 anos acumula uma enorme bagagem no mercado cinematográfico e audiovisual. Em A Perfeição, a música é a locomotiva que carrega o peso de todos os vagões. É ela que valoriza o belíssimo trabalho fotográfico e põe em evidência as atuações mencionadas anteriormente. Por vezes, apenas as cordas do violoncelo são ouvidas, numa marcação que antecipa eventos e cria sequências de ótimo valor estético. Uma pena que, com as revelações e descobertas, a produção opte por inserir músicas completamente perdidas na grandeza sonora do filme.

Há uma simbiose evidente entre o trabalho artístico e técnico. Vanja Cernjul (Diretor de Fotografia) John Marcynuk (Desenho de Produção) e Stevo Bedford (Direção de Arte) são responsáveis por, junto ao diretor, desenharem em tela enquadramentos que beiram efeitos alucinógenos. Com cores quentes, iluminação neon e uma paleta bem contrastada, cada quadro funciona como um ensaio aterrorizante de uma mente problemática. Seja no amarelo que transita do psicodélico ao enfermo ou no vermelho que varia da libido à atrocidade, a colorização é um processo primordial para a assimilação do grotesco.

O roteiro consegue ser o ponto forte e o ponto fraco do filme ao mesmo tempo. Numa estrutura arriscada e criativa, a constante briga entre pistas falsas e indícios fazem de sua interpretação um exercício mais abstrato. Em paralelo, a edição de David Dean segue um caminho desgastado de rebobinar e dar o play, revelando informações ocultas anteriormente. O esforço do espectador torna-se em vão, pois tudo é entregue de bandeja. Quanto à conclusão, mesmo que esteja longe de ser óbvia, habita o lugar comum e, mesmo que choque, faz todo o sentido.

De sonorização europeia, roupagem asiática e disputa de egos norte-americana, A Perfeição é mais um dos ótimos filmes no catálogo da Netflix. Caso tenha um estômago mais fraco, um aviso: há cenas nojentas… mas nada de outro mundo.