A Grande Luta esbarra numa barreira do século 21: discurso. Numa busca incessante pelo equilíbrio e disfarçando a violência coreografada do mundo do WWE (World Wrestling Entertainment), o roteiro não se sente seguro para funcionar da forma correta.

Como inserir uma criança (adolescente?) de 11 anos numa espécie de espetáculo circense americano onde a grande diversão é torcer por homens e mulheres esbofeteando-se de todas as maneiras? – Aqui cabe uma observação: não há agressões verdadeiras e tudo faz parte do show-business. Além de lutadores, todos são atletas e preparados fisicamente. E como diria o lendário “Chapolin”, seus movimentos são friamente calculados. – Este foi, sem dúvida, o maior desafio para a equipe criativa. Diferente dos anos 80 ou 90, onde homenzarrões musculosos roubavam as cenas dos filmes de ação a comédias-pastelão (tarefa que hoje cabe ao simpático “The Rock”), o pensamento crítico e a constante patrulha do politicamente correto faz dessa dinâmica narrativa uma tarefa árdua, principalmente quando o tema principal está envolto num contexto polêmico.

A resposta parecia óbvia: inserir um pouco de magia e fantasia. Para isso, dois roteiristas que fizeram sucesso recentemente com outra produção da Netflix, a animação Klaus, dirigida por Sergio Pablos, foram contratados: Zach Lewis e Jim Mahoney. De fato, o grande ponto positivo por trás da comédia infantil está justamente nesta aura de imaginação e magia por trás da máscara eternizada pelos lutadores mexicanos nas “luchas libres”.

Com magia, aventura e um show de lutas com ícones da WWE NXT, o roteiro deveria ser mais simples, justificando sua trama pela força da imaginação da criança. Tudo poderia ser fruto de um sonho, de um desejo irrefreável. Não é isso o que acontece. A produção, que conta com quatro roteiristas: Larry Postel e Peter Hoare, além dos dois já mencionados, investe em subtramas propositalmente inseridas para perpassar temas atuais. Bullying, relação de afastamento entre pai e filho, paixonite adolescente, crise financeira familiar. Honestamente, nada justifica e nem combina com a roupagem do filme.

Mas afinal, que universo é esse? Leo (Seth Carr) é um menino de 11 anos que vive com o pai, Steve (Adam Pally) e com a Avó (Tichina Arnold). Esta, diga-se, é a personagem que mais combina com a semântica transloucada do filme. Mesmo que a figura da avó influencer digital e fã de luta livre seja posta de lado para dar espaço a uma sem graça conselheira, é nela que o protagonista dialoga o assunto que mais importa: a força e a magia estão dentro de nós mesmos.

A relação de Leo com o pai é complexa. Steve foi abandonado pela esposa, filha da Avó (a personagem não tem o nome citado!) que está vivendo com eles, e está endividado. Atualmente está em dois empregos e, além não ter tempo para dividir com o filho, não consegue se abrir com ele sobre a separação dos dois. Na escola, Leo, como manda a cartilha dos filmes de super-heróis ou que se tenha alguma jornada de superação a seguir, sofre bullying com os seus amigos nerds: Riyaz (Aryan Simhadri), que se julga um cineasta de primeiro nível e Caleb (Glen Gordon), um menino introspectivo que não se abre para os amigos. Trevor (Josh Zaharia), Mason (Dallas Young) e Luke (Bodhi Sabongui) formam o trio de implicantes que não deixam os amigos em paz.

É numa das fugas de uma possível surra que Leo invade uma casa de antiguidades e, por obra do acaso, encontra o artefato mágico que pode mudar sua vida para sempre: a máscara dos “luchadores”, que concede seus poderes a quem ela julga digno, como o “Mjölnir”, de Thor.

A parte mais agitada, divertida e logicamente mais “business” é quando se inicia o desafio para o novo campeão do WWE NXT na cidade de Fallbridge, onde reside Leo. A WWE, também produtora do filme, utiliza seus principais nomes, sejam como eles mesmos ou como personagens absolutamente bizarros. Desde os apresentadores Corey Graves e Renee Young, até os lutadores Sheamus, Otis Dozovic, Eric Bugez, Mia Yim, Jordie Taylor, Kofi Kingston, entre outros. Dois deles recebem mais protagonismo e dividem a atenção com Kid Chaos, codinome adotado por Leo. Smooth Operador (Keith Lee) e Samsom (Babatunde Aiyegbusi), a este sendo incumbida a tarefa de antagonismo junto a seu empresário Frankie (Ken Marino).

Os astros demonstram total aptidão com as câmeras e temos ótimos momentos e cenas daquelas absurdamente mentirosas que nos fazem esquecer um pouquinho de nossa realidade já cheia de regras. Stinkface (Otis Dozovic) tem “golpes” impagáveis e por um momento faz-nos esquecer da vida adulta.

Há quem possa vociferar que o filme comete uma atrocidade em enjaular uma criança com homens gigantescos. Um acidente ou um golpe podem ser fatais. Há de se levar em conta que, assim como o super-herói “Shazam” (que é uma criança!), Leo está com uma máscara que lhe concede super-poderes. Mas, sabendo que a sociedade é um tanto esquizofrênica com alguns assuntos aleatórios, os roteiristas inserem esta camada ao texto. É bonito, mas deixa-se de lado um pouco da fantasia.

O diretor Jay Karas, por sua vez, vai na contramão do que pede a narrativa e mostra mais controle e dinamismo nas cenas que nem deviam existir. Contribuindo com o roteiro desnecessário, os enquadramentos de Steve, que aos poucos expandem-se, libertam um homem aprisionado na sua própria solidão. Mesmo que textualmente não ocorra de maneira clara, Leo, aos poucos, ajuda seu pai a libertar-se de suas amarras. Mesmo que pareça ao contrário. A inspiração parece perder-se um pouquinho nas lutas. Cortes rápidos e secos com enquadramentos pendendo ao protagonista são a única fórmula encontrada, há pouca inventividade imagética.

Há algo que incomoda muito no filme. Quando Leo se transforma em Kid Chaos (para isso basta colocar a máscara!), sua voz altera a tonalidade. Isso é suficiente para que todos em volta (exceto os que descobrem seu segredo!) tenham certeza de se tratar de um adulto. Esta escolha, além de bizarra pela voz estranhíssima, é completamente inverossímil, pois todos o enxergam exatamente da mesma estatura e com o mesmo peso. Tudo se resolveria com uma simples cena de um reflexo ou numa interação de algum personagem com ele, onde Leo se transformaria num adulto. Provavelmente a escolha foi feita para facilitar produção, direção, edição e continuidade do filme, pois seria muito mais trabalhoso filmar as sequências com dois atores em vez de um.

Karsten Gopinath (Direção de Fotografia), Eric Fraser (Desenho de Produção), Lisa Lancaster (Cenografia), Kara Saun e Evan Shotropa (Figurino) formam uma unidade sólida na construção de uma paleta moderna e brilhante que converge sempre para o azul. A motivação? A cor da máscara mágica. Figurinos, iluminação, cenários, arquitetura e até os efeitos visuais são carregados em tons azuis. A dualidade fica por conta do vermelho quente e brilhante da rivalidade, competição e êxtase causado pela disputa do título do WWE NXT.

Sobrou discurso, faltou imaginação, entrega à magia da criança e à loucura do entretenimento do WWE. A Grande Luta não nocauteou, mas também não foi à lona. Ganhou pela contagem mínima de pontos.